Nos meus post venho tentando manter a linguagem o mais longe possível dos termos específicos dos velejadores, mas muita gente está me perguntando como é velejar num barco de competição  de 68 pés. Qual a diferença para um barco de 35 pés? Bom, vou tentar explicar de uma maneira que quem não é velejador também entenda, mas algumas coisas são difíceis de explicar pra quem não vive a vida em função do vento. 
Posso dizer  que velejar em um barco deste tamanho não é muito diferente dos barcos menores, e que é bem diferente dos barcos menores. Confuso? Na verdade são as duas coisas ao mesmo tempo. Do ponto de vista essencial de velejar, de fazer o barco mover-se pela força do vento, posso garantir que é exatamente igual a um veleiro menor com armação sloop (um mastro). O vento impulsiona as velas da mesma forma e você continua não podendo velejar na mesma direção do vento, velejar a favor do vento, em popa rasa, continua sendo lento e perigoso para um jibe, na verdade um "crash jibe", com uma retranca de 350kg girando sobre o barco e levando com ela tudo o que estiver em seu caminho. Mas o mais importante a que trimagem (regulagem) das velas segue os mesmos princípios e regras dos barcos menores. 
O que muda mesmo é o tamanho das coisas. Tudo é muito grande e muito pesado. Da retranca eu já comentei. As velas de proa parecem mais sacos de cadaver de 4 a 5 metros de comprimento onde são necessárias no mínimo 6 pessoas para tirá-las de dentro do barco. E a cada mudança na força do vento elas devem ser trocadas o que pode acontecer várias vezes ao dia.... Bom, e como trata-se de um barco competição a maioria dos luxos presentes num barco de cruzeiro do mesmo porte passam longe dele.... Coisas como piloto automático, catracas elétricas, lazy jack, enrolador de genoa ou de vela mestra, são apenas sonhos. 
E porque tudo é muito grande e pesado, o principal ponto que muda quando se veleja em um barco deste tamanho é a preocupação com a segurança. E ela vem sempre em primeiro lugar. Até mesmo a maneira de enrolar um cabo ou o nó que usamos para a ponta de um cabo, ou a forma que passamos o cabo em um cunho muda. Como exemplo, se pararmos para pensar que a escota da genoa (que naqueles barcos são na verdade Yankee) tem cerca de 30mm de diâmetro pesa mais de 15 kg (não dá pra enrolar no braço, hehe) e aguenta forças de cerca de 8 toneladas, puxadas em catracas de 3 velocidades e número 980, a gente começa a ter a ideia de quão perigoso pode ser um acidente. Imagine se você tropeçar no cabo numa mudança de bordo, ou se a sua mão prender entre o cabo e a catraca ou um moitão, maior que a palma da mão. E foi por causa da segurança que tive que reaprender muitas das coisas que sabia do trabalho no deck.
Também por motivo de segurança cada evolução (manobra) deve ser bem planejada, seja o içamento da vela mestra ou velas de proa, um rizo na mestra, uma mudança de bordo, o trabalho com os spinakers, tudo é minuciosamente planejado, em uma seqüência predeterminada e conhecida por todos, com cada membro da tripulação desempenhando um papel claro e específico. Somente nestes aspectos já se ganha muito em segurança e em segundo plano, performace, pois qualquer contratempo em uma manobra pode significar perder milhas e milhas para os concorrentes. 
Ainda, pequenos detalhes, muitas vezes negligenciados em barcos pequenos, estão as diferenças. Como por exemplo no içamento de uma vela de proa  em que é preciso planejar em que lado do barco (boreste ou bombordo) ela subirá, pois a adriça que será usada deverá será ser a do lado oposto, pois dependendo do vento, a violência que uma vela com esta paneja (sacode loucamente) pode ferir gravemente quem está no mastro ajudando a vela a subir. A escota solta (enquanto a vela é içada) pode facilmente quebrar um braço ou nocautear quem estiver por perto. E foi com exemplos de várias histórias tristes que aprendemos cada um destes pequenos detalhes (e alguns pesadelos por causa destas histórias).
No final das contas o que percebi foi que não é possível (ou potencialmente perigoso) velejar uma grande barco de 68 pés da mesma maneira que se veleja em um 35 pés. Mas é possível (e saudável) velejar um barco de 35 pés da mesma forma em que se veleja em um 68.





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