Pessoal, eu sou Juliano Dario Togneri, irmão do Gustavo e irei postar os relatos que ele estará enviando diretamente do barco. O texto deste post foi enviado dia 11/09 e somente hoje pude colocar no ar.

48 horas - 11/09/13 - 12:00 UTC
LAT 43 graus 20 minutos - Norte
LOG 10 graus 20 minutos - Oeste

Costa norte de Portugal

Após apenas 48 horas de competição tivemos diversos altos e baixos dignos de uma grande regata.

Largamos relativamente bem entre os 4 primeiros em uma orça apertada com mais de 20 nós e ondas de mais de 2 metros. Infelizmente pra mim, não vi muita coisa, pois era a minha vez e a do Emanuel de ser a "Mainha” e prover comida e bebida para 21 pessoas.

Além do azar de perder o início da segunda etapa, até agora foi o pior dia que já vi para alguém ficar na cozinha. Os barcos estavam adernando (inclinando) mais de 35 graus, sei disso porque este é o máximo que o nosso fogão consegue compensar de inclinação, e batendo forte contra as ondas.

Não tem como não enjoar. Metade da tripulação estava mal. Eu e o Emanuel fizemos o impossível para cozinhar o almoço e o jantar. O calor e o cheiro de comida enlatada eram demais pra mim. Estávamos inclusive nos questionando sobre a decisão de participar disso. Acho inclusive que nunca mais vou comer salsicha enlatada... Metade da tripulação não conseguiu jantar, e não foi porque a comida estava ruim, já que alguns repetiram...

A única notícia boa daquele dia, pelo menos pra mim, foi a minha promoção a watch leader assistente, algo como "vice capataz" do meu turno. Quando o watch leader não estiver, eu sou o responsável por tudo no deck.

Estávamos bem, aparentemente entre os três primeiros, quando durante a madrugada, a vela mestra veio abaixo novamente. Novamente usamos o cabo que segura a retranca para içar a vela mestra. E ao tentar subir um dos spinnaker, o nó que segurava a vela também soltou e a vela veio abaixo ficando na água embaixo do barco. Nós que estávamos dormindo tivemos que sair correndo para recuperar a vela da água. Pelo menos conseguimos recuperá-la sem nenhum furo ou rasgo.

A ideia de içar um spinnaker foi abandonada naquela noite. Passamos de segundo para penúltimo no inicio da manhã. Estávamos desconsolados, vários problemas para resolver e 25 milhas (umas 3 horas) atrás dos líderes.

Conseguimos subir um spinnaker durante a manhã e seguimos com ela durante todo o dia, mesmo sendo uma vela um pouco menor do que podíamos usar.

Veio a noite. O vento aumentou novamente e as ondas também. Durante o meu turno das 23hs as 03hs, fui convocado pelo skipper para o leme. O primeiro a timonear o barco, além do skipper, com ventos de 27 nós, ondas irregulares, e noite escura, sem lua ou estrelas. Um verdadeiro desafio.

Estava indo tudo vem, bati o recorde de velocidade até então com 19,5 nós.

De repente, perdemos o controle da escota do spinnaker na catraca. Uma onda jogou a proa para o lado, o barco entrou em popa rasa e o spinnaker ficou na sombra da vela mestra e começou a enrolar nos stais de proa. A "M" estava feita. A vela enrolou toda no stai de proa interno, junto com mais as duas adriças das velas de proa. Horas e horas tentando achar uma maneira de baixar a vela e nada. A decisão mais sensata foi tomada. Esperar o dia clarear e o as condições de vento e mar melhorarem para tomar alguma ação.

Mais uma noite difícil, mais problemas, ainda sem solução. O moral baixou bastante. O objetivo agora era só não chegar em último. Além disso, as comunicações do barco estão com problemas e não conseguimos obter previsão do tempo detalhada e atualizações das posições dos barcos e e-mails da tripulação.

O vento apertou novamente, soprando agora a mais de 35 nós com rajadas de mais de 40. Força nove (na escala que vai até 12)...

De repente um rumor no rádio em conversa com outro barco da competição, nos diziam que estávamos em segundo!! Aparentemente as outras tripulações também tiveram diversos problemas e iam mais devagar. O moral voltou a melhorar. O que de certa forma é perigoso, pois é fácil relaxar e esquecer da segurança e um pequeno detalhe pode estragar uma vela, ou pior machucar alguém. O vento está muito forte, e não dá pra baixar a guarda. As coisas podem ficar bem perigosas de uma hora para outra.

Tem horas que o barco aderna demais, ruídos e rangidos estranhos são ouvidos, e chegam a dar medo. E cada um que sai para o deck seco volta ensopado... Pelo menos está um sol maravilhoso.

E de repente, quando fazíamos ajuste nas velas uma grande onda nos pegou de lado e fez com que o barco adernasse em uns 50 graus, retranca e vela inteira na água e parte do convés ficou debaixo d'água levando um dos tripulantes convés a fora. O skipper estava no banheiro e pude ver o rosto dele quando saiu correndo pra ver o que acontecia. Puro pavor!

Felizmente só um grande susto. John está bem, perdeu o par de Crocs, mas não o óculos escuros. Pelo menos foi tudo capturado na câmera do tripulante de mídia. Certamente aparecerá no documentário da regata. Ele disse que agora pode dormir o resto do caminho até o Rio...

Lorraine Marriott
14/9/2013 10:37:58 pm

Reply



Leave a Reply.