Muitas vezes é difícil transmitir às pessoas o tamanho das dificuldades e sensações pelas quais passamos em uma travessia oceânica, é fácil ver no olhar das pessoas quando conto as histórias. Mas é assim mesmo. Apenas contando, lendo ou mesmo vendo na TV é difícil transmitir a total dimensão do desafio. Somos seres cognitivos e nada melhor que comparações com situações pelas quais já passamos para transmitir estas ideias e sensações.
 Os meus leitores do sul do Brasil estão experimentando um frio raro para a nossa região nestes últimos dias por isso não vi situação mais oportuna que esta para exemplificar o que é o frio numa noite comum a bordo de um dos barcos da Clipper em suas travessias ou mesmo durante os treinamentos. Todos nós estamos experimentando o que é ficar alguns poucos minutos em temperaturas em torno de 5 a 8C com uma brisa gélida no caminho do carro até o trabalho, ou supermercado, esperando o ônibus ou taxi, por exemplo. Já é de matar! Agora imaginem ficar durante 4 horas acordado durante a madrugada em temperaturas similares, e muitas vezes com ventos de 40, ou 50, ou até mesmo 80km/h. Ah, e provavelmente com bastante água querendo entrar na sua roupa. Isto faz com que a sensação térmica fique bemmm abaixo de zero. Muitas vezes não dá pra aguentar e por isso fazemos rodízio das pessoas no convés, a cada uma horas. Pelo menos comigo, não importava quantas camadas de roupa eu tinha, aquele frio (às vezes junto com um pouco de água) sempre penetrava e era sentido dentro dos ossos. E mesmo fazendo revezamentos, é incrível a ansiedade quando chega a hora da troca de turno, quando você só quer saber de tirar a roupa molhada, aquecer-se e ir pra cama. Agora tentem imaginar um pequeno atraso de 5 minutos na troca de turno porque as pessoas demoraram para se arrumar. Segundo a lei da relatividade, aqueles 5 minutos transformam-se em horas, diretamente proporcional ao frio que você está sentindo. Repita isto 2 ou três vezes, e teremos um grande problema de relacionamento na equipe (escondam as facas!).
Neste frio os dedos das mãos e dos pés ficam dormentes bem rápido, dificultando bastante qualquer trabalho, sem falar na dor. Lembro claramente das vezes que fiquei no leme por cerca de 2 horas, e mesmo com luvas, que depois de molhadas não faziam muita diferença, e no momento em que tirei as mãos do leme os dedos simplesmente tinham tomado a forma do leme e não mexiam mais. É possível imaginar que problemas como hipotermia ou trombose, tornam-se facilmente reais em situações como esta. E nela aprendi a não querer ser herói e tentar aguentar o máximo possível porque, talvez, eu seja bom naquela função, ou simplesmente goste de desempenhá-la. Não adianta muito passar uma ou duas horas a mais no leme se nos próximos 2 ou 3 dias não poder subir ao convés por estar acamado com gripe ou até com uma condição mais séria.

A imagem abaixo mostra um início de manhã bem frio a poucos minutos da tão esperada troca de turno.
Humildade, paciência, auto-conhecimento, resiliência, visão de longo prazo, confiança nos companheiros de tripulação, trabalho em equipe (e comprar luvas, gorros, meias melhores). Várias lições aprendidas em algumas poucas situações de frio no meu treinamento de vela oceânica com a Clipper. O que será que ainda vou aprender em um mês de travessia do Atlântico?



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