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Um bom dia para velejar até a França
Esta é a parte do curso com o principal objetivo de simular o ambiente e a rotina da competição e suas travessias. Nela, passamos uma semana inteira sem pisar em terra. E isto tem algumas implicações, como por exemplo, uma semana sem banho, sem uma cervejinha ou mesmo algo gelado, e acima de tudo uma semana (ou quase isso) trabalhando em turnos de 4 horas, das quais, com sorte, é possível dormir 3 horas, não importando as condições de vento, temperatura ou de mar. Afinal de contas, estamos competindo.... Além disso, é a oportunidade para conhecermos quem será o skipper que nos conduzirá em nossas travessias, sua maneira de trabalhar, regras, gostos, etc. No Level 3 a tripulação também aumenta dos usuais 8 a 12  tripulantes para 16 a 18. Esta mudança também tem o propósito de simular um pouco melhor o que será a vida e o convívio a bordo com uma tripulação cheia, com diferentes nacionalidades, experiências e temperamentos.  E posso dizer, não é fácil.... talvez a mais difícil.

No meu curso, enfrentamos praticamente todos os tipos de condição de tempo e mar, faltando somente neve e calor escaldante... No primeiro dia, após uma introdução do diretor da regata (Justin), suspendemos ao mar para uma desenferrujada de 24 horas antes da primeira largada das 3 regatas que correríamos naquela semana contra outros 2 barcos do mesmo curso. E que 24 horas! Como terapia de choque, enfrentei a pior condição de tempo de toda a minha vida, com ventos de 50 nós e rajadas de mais de 55 nós, ondas de até 4 metros, chuva e temperatura perto dos 5 graus. Tudo isso a noite. Nunca passei tanto frio nas mãos e pés como nesta noite. Em menos de 5 minutos as mãos já adormeciam e ficavam duras do frio. Tive que dobrar o turno, ficando acordado das 9 da noite até 4 da madrugada, pois mais da metade da tripulação estava passando mal (ou com medo) sem condições de trabalhar. Realmente não foi uma noite fácil, de tão cansado, ou em princípio de hipotermia, cheguei a cochilar por um breve momento no convés, mesmo sob toda a fúria do mar e vento. Aí entendi o quão perigoso pode ser o cansaço. Mas o que nos deixa mais assustados numa situação como essa, é não saber quando ela vai acabar, e que numa situação real de travessia oceânica o mau tempo pode durar vários dias. Isto faz a gente pensar… Esta foi a principal lição, apesar de comentada várias vezes pelos skippers e instrutores de sobrevivência no mar, teve que ser aprendida com vivência, e agora sei, que a melhor coisa para estes momentos é manter a mente (e as mãos) de todos ocupada, sempre com o foco no objetivo (que às vezes é só sobreviver), evitando assim, que o pessimismo tome conta e pior, contagie toda a tripulação.
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Nenhum vento e muito frio no início do turno as 5:00 AM
Passados os maus momentos da primeira noite era hora de começarmos a nossa primeira regata de aproximadamente 20 horas e 110 nm (200km), com um percurso por algumas bóias no Solent da Ilha Wight, e depois contornando uma bóia cardinal perto da França, no outro lado do canal da mancha. Foi então que as coisas começaram a fazer sentido! Depois de tantos e cansativos drills e repetições de manobras com equipes e skippers diferentes nas fases do curso, foi interessante ver como as pessoas conseguiam se entender e trabalhar em equipe. Claro que toda equipe por mais experiente que seja, deve passar por um processo de construção (team building) com um sensível ganho de performance e velocidade, e nós não éramos diferentes. Mas o principal foi a mudança na minha cabeça. Todos aqueles questionamentos, seguidos por revisão do contrato com a Clipper sobre desistência, agora sim, tinha total e absoluta certeza de que aquilo era pra mim e todo o sofrimento com o frio havia valido a pena! After all, finally we were racing (and wining)!! Impressionante como aqueles barcos andam junto, lembrando-me dos tempos de Optmist, chegando até a assustar quem não está acostumado, a disputa pelo melhor alinhamento na largada. Parecíamos monotipos só que com 30 ton de deslocamento. Ao mesmo tempo, qualquer pequeno erro na regulagem das velas, uma cambada mais lenta ou mesmo um pequeno erro tático na escolha do percurso, vão fazer a grande diferença na determinar o vencedor, da mesma maneira que acontece nos barcos menores. Houve momentos durante a madrugada em que tínhamos até 1 nó a mais de velocidade em relação ao barco mais próximo, que estava menos de 0,5 milha de distância. Tínhamos o mesmo vento a mesma condição de mar e maré. Toda esta diferença era fruto da melhor escolha e regulagem de velas.

O restante da semana seguiu com mais algumas regatas, uma mais curta de poucas horas ao redor da Ilha de Wight e outra bem mais longa de aproximadamente 58 horas, maior que uma Recife Noronha, sendo que esta, só nós completamos.  Nesta passamos por uma grande variedade de condições, desde calmarias inquietantes durante a madrugada, neblina durante a manhã, ventos frescos e amenos, dias ensolarados, noites escuras e outras limpas. Conseguimos também colocar aquele enorme assimétrico pra voar durante a noite, começando com um vento de alheta tranquilo, e baixando a vela no início da manhã quando já estávamos quase em orça apertada e 18 nós de vento aparente. E é claro que tivemos que deixa-la cair na água (mesmo que só uma parte) para aprender o quão difícil é resgatar uma vela daquele tamanho cheia de água e em velocidade. Agora sabemos....

Como resultado, navegamos 600nm, quase pisamos na França, chegamos até a ponta sudoeste da Inglaterra e voltamos, rasgamos vela, escotas e rizo no primeiro dia, e quase fritamos o motor na chegada quando perdemos o impeller da água interna do motor. Realmente uma semana inesquecível, onde os bons momentos foram grande maioria, novas amizades, boas rizadas, e bem mais confiança para participar de uma travessia. Que venha a largada, no dia 1 de setembro!


Veja aqui os melhores momentos desta semana.



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