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Foi no final de outubro que cheguei a Gosport, sul da Inglaterra para começar o meu treinamento, e porque não dizer, provas, para o maior desafio da minha vida até agora, participando de uma das etapas da Clipper Round The World. A época, metade do outono no hemisfério norte, não foi escolhida, mas quase imposta. Quando pude começar a me programar e pensar nas datas para começar o treinamento, no início de agosto, não haviam muitas vagas para os treinamentos de setembro e os preços das passagens estavam proibitivos. E ainda precisava pensar em conjugar mais partes do curso numa mesma viagem. A idéia inicial era inclusive fazer os dois primeiros níveis de treinamento prático e o teórico "back to back" como eles falam. No entanto, por alerta do Emanuel (que já passou por isso), me recomendou a limitar-me ao Level 1 e ao curso teórico. O por quê eu só consegui entender agora, assim como acho que vocês irão entender no decorrer dos posts.
Até a gente começar os treinamentos a ideia de participar de uma travessia oceânica em uma competição não é nada muito além disso: uma ideia. A gente lê vários relatos, assiste a vários videos, participa das discussões do Facebook, fala animadamente sobre o assunto, e às vezes até é tratado como celebridade. Mas por enquanto são só ideias, ideias de como deve ser, do que vamos enfrentar. Apenas ideias, não experiências.
Acho que esta primeira parte é a mais importante do curso. Muito mais do que ensinar as pessoas uma cambada ou como dobrar uma vela, este curso serve para mostrar e fazer com que as pessoas (metade delas nunca velejou) entendam melhor a decisão que tomaram de participar desta empreitada em seus mais variados aspectos. Desde a própria técnica de velejar, passando pelo pesado trabalho com as velas, o equilíbrio em condições de mar adversas, a suscetibilidade aos enjoos,  o frio muitas vezes intenso, chuva, água salgada na cara e dias e dias sem um banho quente, ou mesmo sem banho, a falta de privacidade, até mesmo para trocar de roupa, a restrição de espaço, dividir 2 banheiros entre 20 pessoas, a privação de sono e o trabalho em turnos durante a noite não importando o quão cansado você esteja e a velocidade e a temperatura do vento lá fora, não comer o seu prato favorito por muito tempo ou mesmo comer o que não gosta, ficar desconectado do resto do mundo, família, amigos, contas, investimentos. Além uma pequena mas incômoda sensação de solidão e impotência frente a qualquer adversidade, em que a gente percebe que qualquer ajuda pode simplesmente não chegar... Mas é esta sensação o motor de arranque que consegue transformar estranhos de diversas partes do mundo formações e classes sociais em um eficaz time vencedor de regatas e em muitos momentos a sua única família. Mas não adianta muito explicar, muitos nem vão compreender, o melhor mesmo é viver para entender.....
Tenho que confessar que em vários momentos me questionei se aquilo era realmente o que queria diante do tamanho do desafio, mas sei que não foi só comigo. Em um momento do curso após as conversas noturnas em grupo, um silêncio mortal tomou o barco e olhares introspectivos cruzavam-se, e todos sabiam exatamente o que se passava na cabeça de cada um. O skipper então também percebeu e comentou : "Gosto do que vejo!". Ele sabia que o curso estava tendo o resultado esperado.
Tenho certeza que o meu curso foi muito mais pesado que o de outras turmas por conta das condições duras de vento, que inclusive nos impossibilitou de sair da marina no primeiro dia, fato raríssimo segundo o skipper, quando a brisa soprava com força 8 (mais de 35 nós), pelo frio intenso (pelo menos pra mim, mas acho que velejar com temperaturas abaixo de 5C é consenso geral de frio), pelo barco maior onde tudo é muito pesado, pela gripe que peguei, e joelho machucado. Mas agradeço que tenha sido assim pois agora tenho mais consciência do que virá pela frente e estarei melhor preparado.

Nós próximos post vou comentar sobre aspectos mais específicos do treinamento e sobre como é velejar em um 68 pés com mais de 33 toneladas de deslocamento.




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