Lat: 34o14,285 minutos - Norte
Long: 016o 05.700 – Oeste
Cerca de 100 nm a noroeste da Ilha da Madeira.

Após o pequeno incidente com o John, o skipper decidiu reduzir o pano e colocar mais um rizo na vela mestra. Em vários momentos inclinávamos mais de 50 graus com ondas quebrando na lateral do casco fazendo barulho ensurdecedor para quem estava dentro do barco. Parecia que tínhamos batido em alguma coisa. Nestas horas mais intensas o skipper ficou no leme a maior parte do tempo. Quando subi ao deck para o meu turno da tarde, o mar já tinha baixado um pouco e não tive oportunidade de timonear nas ondas de até 6 metros e de manter o meu recorde de velocidade do barco até então em 19,5 nós. Naquele dia subiu para 23,5 nós, mas infelizmente não foi comigo.
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Foto: Brian Carlin
Fiquei então com as ondas de 4 metros. A sensação é quase indescritível. Um misto de pavor com euforia no início, passando para puro deleite quando você consegue encaixar o barco na onda, ver a proa à 20 metros de distância inclinar vigorosamente para baixo e afundar levemente na água, seguindo surfando por mais alguns segundo. Foram as horas mais divertidas pra mim até agora. Devo dizer que é uma experiência não recomendada para os cardíacos.

O Patrick diz que não entende porque não vou fazer mais pernas e ter a experiência de surfar as ondas do oceano antártico, pois o talento parecer ser natural para o leme, segundo ele.

Os rumores de que estávamos em segundo lugar enquanto não conseguíamos estabelecer comunicação com o resto do mundo eram bons demais para ser verdade. Éramos segundo, só que na sequencia do último para o primeiro.  Os próximos dias seriam de perseguição para recuperar terreno e voltar para a briga.

Os dias 4 e 5 foram mais tranquilos com ventos amenos de 10 a 15 nós. O mar baixou e finalmente pudemos baixar o spinnaker que ficou mais de 36 horas preso no stai interno de proa. Uma operação que durou cerca de 3 horas com duas subidas do skipper ao topo do mastro para ajudar a desenrolar a vela do cabo de aço. A apreensão era grande para saber qual seria o estrago na vela e se ainda havia condições de recuperação. Após um trabalho minucioso de revisão centímetro a centímetro coordenado por mim e 2 horas depois, encontramos somente uma costura desfeita, facilmente recuperada.

Inacreditável. A vela sobreviveu mais de 3 horas batendo incontrolavelmente na noite em que tudo aconteceu e mais 1 dia e meio, meio inflada, passando por condições de força 9.  Infelizmente não eram só notícias boas. Uma avaliação feita no topo do mastro mostrou que o stai onde a vela ficou presa estava danificado e não poderíamos mais a vela de stai até chegarmos ao Rio para reparos.

No dia 5, sexta-feira 13, foi o meu primeiro dia como watch leader interino, já que o Stuart está de “mainha”. É bastante responsabilidade, devo dizer.

Acordar mais cedo, pegar todos os detalhes do que aconteceu no turno anterior, o que ainda deve ser feito, curso a seguir. Preocupar-se com a segurança da tripulação, designar funções, garantir com que haja rodízio constante no leme e trimagem do spinnaker,  registrar posição e outros diversos parâmetros no log do barco a cada hora, checagem de desgaste dos cabos periódicos,  monitorar o tráfego marítimo,  ter profundo conhecimento das evoluções e manobras e garantir com que tudo aconteça corretamente. E ainda ensinar aos demais da tripulação. Fico contente em ter a confiança do skipper em assumir esta responsabilidade. Sei que não posso ser watch leader por todo o tempo, pois não vou dar a volta toda, mas agora tenho certeza que tenho potencial para tal.

Ainda incorremos em diversos erros muito básicos que me assustam, pois durante a noite é muito fácil confundir os cabos e descer uma vela por engano, ou na hora de precisar subir no mastro ou uma nova vela, ver todas as adriças enroladas e presas em alguma coisa no mastro, como aconteceu no meu turno. Por enquanto, com ventos brandos, é gerenciável. No entanto, a noite com ventos fortes, como os que tivemos no dia 3, pode ser bem perigoso.

Ao contrário dos últimos dois dias, hoje no dia 6, foi bem movimentado. Mais uma vez perdemos o spinnaker que soltou do topo do mastro e foi parar na água. Fui acordado correndo para ajudar a retirar a vela da água, felizmente sem estragos. Sobe vela de proa pra não perder velocidade enquanto é preparado um outro spinnaker. Desce a vela de proa e sobe o novo spinnaker, enquanto o que caiu na água é desenrolado, dobrado e guardado. Tentamos fazer tudo o mais rápido possível para não perder velocidade e depois do almoço veio a maior das decepções até agora. Vimos que um dos moitões (roldanas) que seguram as escotas para os spinnakers estava completamente torto. Parecia que um trem tinha passado em cima dele. Irrecuperável. E o do outro lado do barco já havia sido danificado e ontem conseguimos desentorta-lo um pouco, mas não dá para confiar em ventos fortes.

O problema é que não temos sobressalentes a bordo.  Temos 10 filtros para o motor, mas não uma peça tão importante quanto essa. Temos diversos outros como esse no barco, mas todos têm sua função e não podem ser removidos. Na minha opinião, uma postura altamente questionável por parte da Clipper. A decisão por enquanto é de não subir mais spinnakers até o Rio de Janeiro.

Resumindo, adeus competição. A luta agora é conseguir chegar a tempo para a largada da próxima etapa já que a velocidade do barco fica reduzida. Vamos ver se surge alguma ideia, mas todas que tivemos até agora o skipper desconsiderou...



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