Lat: 19o 00’- Sul
Long: 038o 45’ – Oeste

Ao sul do Arquipélago de Abrolhos

Ontem foi mais um dia especial pra mim a bordo. Consegui fazer uma das coisas que na minha mente estava faltando para tornar esta experiência mais completa. Já estava pensando no assunto à vários dias com um pouco de receio. Não é algo que se faz todos os dias e nem com qualquer condição de tempo, mas de tempo em tempo é preciso fazê-lo. O skipper sempre pede por voluntários corajosos, e na ausência ele resolve o assunto.  Uma coisa é fazer no porto, com pouco vento, sem ondas e sem balanço.

Bom, o receio de altura teve que ficar de lado. A experiência de subir no topo do mastro de 28 metros de altura destes barcos no meio do mar com um imenso spinnaker no alto falou mais alto. Precisávamos fazer uma checagem regular de segurança no equipamento do topo do mastro e também trocar a adriça que segura o spinnaker no alto. Já estávamos com a vela no alto por mais de 48 horas, e não há como prever o desgaste dos cabos e polias sem subir pra conferir. Além disso, precisávamos colocar algo para evitar o desgaste das adriças, que agora corriam por fora do mastro e não mais por dentro, depois que perdemos duas adriças por um desgaste misterioso dentro do mastro que fez romper um cabo 15mm de diâmetro mais forte que aço.

Fui o único voluntário. O que é normal. Em metade das vezes que ele pediu por voluntários a resposta foi negativa e ele teve que fazer o serviço. Pouca gente se sente confortável, ou melhor dizendo, corajosa o suficiente, para passar cerca de 1 hora pendurado e balançando no alto.

Subi, aliás, me subiram mastro acima fazendo diversas paradas para que eu pudesse mudar a minha linha de segurança, que me mantinha preso ao mastro, por diversos pontos diferentes. Sempre me agarrando ao mastro com braços e pernas. Cheguei no topo e fui logo fazer as checagens e trocar a adriça. Vento de 15 a 17 nós, mar relativamente calmo, mas que ainda fazia o mastro balançar. Trocar a adriça foi algo relativamente simples. Coloca-se a nova junto com a primeira, tenciona-se a nova até que a antiga fique folgada e retira-se a antiga. Simples. Mas quando se pára pra pensar nas forças envolvidas nestes cabos e ver aquela vela monstruosa e cheia de pressão pendurada só por aquele cabo, faz você ter bastante cuidado com cada movimento. Depois consegui tirar algumas fotos e curtir a vista realmente impressionante. É possível ver exatamente todas as rajadas de vento pelas suas marcas na água. Apesar do balanço, é muito calmo e sereno. Ver o barco lá embaixo, pequeno, parecendo de brinquedo deslizando pela água, te deixa uma sensação de poder interessante. Gostei!

Após passarmos quase 70 horas com o nosso code 2 no alto, o baixamos e seguimos com uma configuração em “asa de pombo” (uma vela para cada lado do barco), correndo praticamente a favor do vento para fazer um percurso mais curto até o nosso próximo destino em Cabo Frio.

Durante a tarde, nos bancos de areias de Abrolhos, começamos a avistar as prometidas baleias, sendo que as duas primeiras literalmente tivemos que evitar uma colisão certa, desviando e passando a uns 10 m de distância. Elas simplesmente não saíram do caminho e também não afundaram. Impressionante. Certamente se o skipper não estivesse no deck e no leme naquele momento, seríamos notícia nos jornais. Foi então que começou mais um trabalho no deck, o de “whale spotter”, ou avistador de baleias, que consiste basicamente em sentar na proa e procurar baleias em curso de colisão conosco.

Desviamos de mais algumas enquanto outras fizeram questão de passar ao lado do barco e fazer show. Uma passou por nós o tempo todo como se estivesse acenando. Inesquecível.  Ao todo avistamos mais de 15 baleias próximas a nós, sendo a metade com real potencial de colisão. Apesar de muito bonito o show, a apreensão é grande para o que pode acontecer durante a noite. Teremos um farol ligado 100% do tempo, mais só isso não garante a nossa passagem segura por aqui. Contaremos com a sorte também.

Na vida a bordo o cardápio repetindo e agora faltando algumas coisas na cozinha, como por exemplo, macarrão, fica cada vez mais difícil ter prazer durante as refeições. Agora posso eleger os 3 piores pratos que comi ou até deixei de comer aqui. É um páreo duro saber qual é o pior:

1 – arroz com salsicha e abacaxi enlatados e mel. – Impossível repetir e refuguei no primeiro dia

2 – risotto (com tudo o que é possível imaginar de enlatado) – também refuguei uma vez. Pão com margarina era melhor opção

3 – arroz com molho pesto e bacon (faltou macarrão) – triste combinação

Não vejo a hora de chegar no Rio e correr pra uma churrascaria rodízio e comer um boi inteiro.




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