Lat: 10o 45’- Sul
Long: 034o 52’ – Oeste

Um pouco abaixo da latitude de Maceió.

A monotonia dos últimos dias foi tanta que faltou assunto para escrever. É, há momentos monótonos sim na vida a bordo. Tirando a passagem do equador, desde que saímos dos Doldrums, seguimos rumando SSO em direção à costa brasileira em orça com o barco bastante inclinado e batendo contra as ondas nas primeiras 48h. Foram 5 dias nesta condição chata. Até beber água em copo era tarefa arriscada dentro do barco. E no deck não havia muito que fazer, basicamente era seguir o rumo estabelecido no leme. E com o watermaker vazando cada vez mais, passamos mais tempo tirando água dos porões que velejando. Muito chato! Alguns vão achar estranho ou mesmo me criticar, mas uma coisa é ficar algumas horas nesta condição em uma regata curta, outra coisa são dias e dias assim. Não víamos a hora de ver a mudança tão aguardada do vento para leste que permitiria um ângulo favorável para subirmos os nossos spinnakers e descer a costa brasileira com mais velocidade.

Ontem a tarde, dia 23 a bordo, finalmente a monotonia foi quebrada. Era o meu turno da manhã e ainda estava com watch leader interino, quando o Patrick subiu no deck. Olhamos mais uma vez o vento. Velocidade, direção, rajadas. Estávamos no limite de não conseguir velejar o barco com spinnaker no rumo desejado, uma linha reta em direção à Abrolhos no sul da Bahia, distante cerca de 500 milhas. Discutimos as opções mais uma vez e eu disse que gostaria de tentar. Então estava decidido! Kite up!!

Subimos a Code 2, uma vela um pouco menor que a code 1, mas que seria mais adequada pelo ângulo que estávamos, com vento aparente a cerca de 60 graus da nossa proa. Seguimos velejando e orça folgada, arribando um pouco nas rajadas para evitar que a vela ficasse na água fazendo bons 11 a 12 nós.

Agora sim tínhamos diversão, trabalho pra no mínimo 3 pessoas no deck e muita concentração no leme. Acho... melhor dizendo, tenho certeza que a maioria discorda de mim. Não gostam de velejar estes spinnakers. Justamente porque dá mais trabalho, há risco de “colapsar” a vela que pode enrolar mastreação e rasgar e risco de jaibe quando estamos muito empopados. Dá pra ver o pânico nos rostos dos que vieram pra curtir o sol, pegar um bronzeado, e ler um livro no deck. Ops! Pronto, falei! E a noite as coisas ficam muito mais interessantes, já que não dá pra ver as ondas e as rajadas chegando.

Pra mim é pura diversão. Nos últimos dias não aguentava ficar mais de meia hora no leme de tanto sono. Agora fico até duas horas se deixarem. Trabalho constante para compensar as subidas e descidas das ondas e aproveitar uma pequena surfada quando possível. Ver o barco adernar (inclinar) e acelerar nas ondas e chegar ao limite de colapso do spinnaker.  Disto sim, vou sentir muita falta. Estamos já a mais de 24 horas com o kite e espero não ter que baixa-lo ate chegar na Marina da Gloria no Rio.

Agora já na metade da descida da costa brasileira, começo a sentir que estou chegando em casa. Não sei se é o cheiro do vento, a temperatura, o mar, nascer e por do sol, os 'enxames' de golfinhos que acompanham o barco por horas e horas, o céu noturno do hemisfério sul, ou tudo isso junto. Gostaria de ter passado bem pertinho de Fernando de Noronha, que ficou a mais de 65 milhas a boreste, ver a ilha e relembrar bons momentos que tive com minha namorada há alguns anos quando velejamos até lá para passar o Reveillon.

Agora com o kite (spinnaker) no alto, nos igualamos aos outros barcos e podemos brigar por melhores posições. Temos o Team GB na nossa cola, chegando a ser visível no horizonte em alguns momentos e dois barcos que ainda podemos alcançar à nossa frente, o “Derry” e o Henri Lloyd. Temos uma estratégia de velejar mais dentro da costa, enquanto os outros rumam mais à leste e distante da costa, para percorrer uma menor distância até o nosso ponto de virada em Cabo Frio, RJ, e aproveitar um pouco mais da corrente brasileira. Se tudo der certo, a previsão de chegada ao Rio de Janeiro fica entre dia 6, domingo, na parte da tarde e dia 7, segunda-feira.

3/10/2013 05:42:46 am

Vai lá Gustavo! Ânimo! Arrisque tudo com responsabilidade e consciência! Estamos torcendo pela chegada no Rio! Abraços da Babitonga!

Reply



Leave a Reply.