Dia 18 – 26/09/13
Lat: 06o 19’- Norte
Long: 026o 20’ – Oeste
Ainda no meio do nada e dos Doldrums... 
Quinto dia de tentando cruzar esta peculiar (pra dizer o mínimo) região do planeta. Aqui a previsão do tempo vale por algumas horas apenas. Quando chegamos aqui a previsão era de que a zona de convergência intertropical se estenderia da latitude 11o N até 8 o N, mas parece que ela gostou de nós e não quer nos deixar sair.  Estamos já na latitude 6 o N e o vento ainda é incerto. E acabo de saber que esta deve ser a maior ITCZ (Inter Tropical Convergence Zone) da história da Clipper. Castigo? Não sei, mas parece que estamos pagando por alguma coisa. Mas para ser justo, não devemos ser os maiores pecadores por aqui, já que há barcos em situação bem pior. O barco Mission Performance, já apelidado de Mission Impossible, Fo o primeiro a entrar nos Doldrums apostando em uma passagem mais rápida rumando mais para oeste, no entanto deve ser o último a deixar este pedaço do inferno na terra. 

Chegamos a passar de 8 a 10 horas quase parados, andando somente com o balaço das velas com as ondas. Nas últimas 8 horas tivemos um vento mais constante de cerca de 3 nós vindo de suldoeste. Outros barcos tem desempenho ainda pior.  Durante a noite, quando houve vento e squalls (tempestades isoladas) adotamos uma estratégia mais agressiva (pra não dizxer arriscada) de velejar com o nosso maior spinnaker (code 1) e vela mestra sem rizos. Nestas noites quase não respirávamos e o convés era um silêncio só. Passávamos muito próximos das nuvens que, mesmo em noite escura, já eram assustadoras. Quando olhávamos para a tela do radar a sensação era ainda pior. Ventos aumentando de 5 para 12 ou mesmo 15 nós, e fomos seguindo. A estratégia deu resultado. De oitavo fomos à sexto. Agora voltamos para sétimo na medição de distância até o nosso destino final. 

O calor ainda é o nosso pior castigo. Piorando com a falta de vento. Somente durante algumas horas durante a madrugada e no início da manha é possível dormir sem acordar totalmente suado. O resto do dia e da noite é pura tortura. Já rolou até ritual para Netuno, deus grego do mar e para Éolo,  deus do vento, pedindo por vento e dias melhores. Mesmo durante a madrugada é possível ficar no convés sem camiseta. Dentro do barco, o calor gerado pelo fogão e forno com a nossa comida e pão, somados ao calor do gerador, ditam a temperatura da sauna. Durante o dia a escolha é simples fritar sob o Sol escaldante ou cozinhar lentamente dentro do barco. Durante a noite pode-se arriscar uma soneca no depósito de velas. Mas se houver uma troca de velas, você será acordado e provavelmente envolvido na manobra. Ontem recebi um presente, pois é assim que encarei. Fui incumbido mudar a instalação do sistema de som para o deck. 6 horas trabalhando dentro e fora do barco, passando e cortando cabos, terminais, amplificador, etc. Porque presente? Pelo menos não fritei mais um dia no Sol e tive coisa pra fazer. A falta de ocupação está sendo extremamente prejudicial para a saúde mental.

Nem tudo é lamento e tortura. Pelo menos os Doldrums estão nos proporcionando algumas paisagens únicas, com nascer e por do sol incríveis, com um mar calmo e espelhado que eu nunca imaginei que podia ser possível no meio de um oceano tão grande, noites estreladas que parecem dia, além de arco-íris e tempestades que mais parecem bombas atômicas detonadas. À noite, às vezes confundimos a via láctea com nuvens de tão densa que ela aparece para nós. Na foto é possível ver o melhor e o pior dos Doldrums: velocidade 0,00 e um por do sol magnífico.



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