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Por do Sol contornando Cabo Frio - RJ
Os últimos dias serviram como provação final nesta travessia quase épica. Foi como se Netuno quisesse ter certeza de que éramos dignos de participar de um seleto grupo de pessoas que tem uma travessia oceânica para contar. Mas olhando pelo lado positivo, foi a "cereja do bolo". 
O que eu temia para o nosso final aconteceu: pegamos a nossa primeira baixa pressão do atlântico sul, que trouxe ventos fortes e em sentido contrário a uma tripulação já bem cansada, física e emocionalmente. Já estávamos na latitude de Vitória - ES quando o vento começou a subir e mudar de  direção de nordeste para noroeste. Como o vento de noroeste ainda entrava pela lateral do barco ainda conseguimos desenvolver boa velocidade e surfar algumas ondas, sendo o último momento de grande diversão até a chegada no Rio. Comecei então a minha última tentativa de bater o meu recorde de velocidade do barco de 19,5 nós, mas precisava de ondas um pouco maiores que os 2,5m que tínhamos. Marquei 18 nós, ainda com o code 2 no alto, em uma boa onda e por uns 10 segundos, nada mal. 
No radio VHF ouvíamos os avisos de previsão do tempo avisando o que já sabíamos, ventos fortes a muito fortes (força 7 a 8) de noroeste a sudoeste para as próximas 24 horas. Aquele vento de noroeste já era o primeiro sinal da baixa pressão sugando o ar da frente quente com mais força. Por volta do meio dia o vento foi baixando até que parou completamente. Na minha vida de velejador de baía e lagoa em Florianópolis já tinha visto aquela situação inúmeras vezes mas com muito menos intensidade. Aquela calmaria só significava uma coisa: o vento ia mudar para o quadrante sul e com força. Foi então que baixamos definitivamente o nosso spinnaker nesta viagem quando a primeira bafagem de suldoeste nos atingiu. E menos de uma hora depois já tínhamos reduzido metade da potência de nossa vela mestra. Agora era vento contra. E forte. 20 a 25 nós. Mais tarde, durante o início da noite, o vento passou para 30 nós com rajadas de 40 nós e as ondas seguindo o aumento do vento, agora com mais de 3 metros de altura. Tudo vindo exatamente do sentido do nosso destino. Barco a vela não não consegue velejar contra o vento, e portanto não conseguíamos manter o melhor rumo em direção ao Rio, sendo agora mais em direção ao sul da África. As ondas contrárias faziam o barco bater forte como nunca vimos antes. Nas maiores ondas, quando subíamos nelas, praticamente metade do barco ficava fora da água para então cair e bater com enorme força no fundo do buraco atrás da onda. Para quem está no leme, principalmente durante a noite, tem que segurar para não cair de tão forte que são as pancadas e o ângulo de inclinação lateral que já colocava parte do deck na água e um dos lemes completamente fora da água. Para que estava dentro do barco a situação não era melhor, principalmente para quem estava em pé cozinhando. Sentíamos aquele frio na barriga, típico de grandes montanhas russas, logo antes da próxima pancada na água. E quando batia, o barulho era muito forte e tudo tremia. Nem é preciso dizer que dormir não era tarefa fácil. Também por causa do vento forte o nosso ângulo mínimo em relação ao vento não era mais de 50 graus, sendo agora de 70 graus, o que significava que era ainda mais difícil rumar em direção ao Rio de Janeiro. Víamos, pouco a pouco,  a nossa chegada sendo cada vez mais adiada. De tão ansioso que estava, fiquei mais de 2h seguidas no leme no meu turno da madrugada, tentando desenvolver mais velocidade e melhor ângulo em relação ao vento até que cansaço e o frio me derrubaram e quase caí do leme. Era hora de parar. 
Para quem dormia, ou melhor dizendo, tentava, mais um complicador. Estávamos no sul do Espírito Santo, em uma região de grande tráfego marítimo e de campos de exploração de petróleo, de acesso restrito, que nos obrigava a cambar (mudar o rumo do barco em relação ao vento para o lado oposto) constantemente. Nestes momentos, tínhamos que acordar os que estavam dormindo para avisar e evitar que eles caíssem de suas camas, atrapalhando bastante as 3 horas de sono entre os turnos.  Durante o dia 28 no mar, o vento baixou um pouco, mas ainda com rajadas de até 30 nós e contra o nosso rumo. Finalmente pudemos ver terra quando chegamos bem perto de Búzios e depois Cabo Frio. Cabo Frio era um grande marco para nós, pois assim que o cruzássemos poderíamos seguir em rumo direto para o Rio de Janeiro a cerca de 65 milhas dali, quase nada... Era o por do sol, o último desta travessia, quando finalmente o nosso último cabo, e eu ajudava, da mesa de navegação, o skipper (no leme) a determinar o melhor ponto em que poderíamos mudar novamente o rumo do barco em direção oeste, em bordo único direto ao Rio. A esperança de cruzarmos as 65 milhas e chegarmos ainda durante a madrugada ou com ou primeiros raios de sol foi pura ilusão. O vento começou a mudar novamente, agora em direção oeste, exatamente o rumo que queríamos. E depois baixou para quase zero. Que desespero.  O meu receio agora não chegar durante o dia 7 e não poder ver a minha namorada após quase 2 meses longe dela. E a situação não melhorou muito durante a noite, vento incerto, mudando de direção a cada hora, intercalando com períodos de calmaria.
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Rio de Janeiro ao fundo - quase chegando!
No início da manhã começamos a avistar as montanhas do Rio. Mas estávamos quase parados. Menos de 20 milhas nos separam da linha de chegada. A agonia da noite seguiu durante toda a manhã com o vento firmando na última hora. Faltavam só 6 milhas. Toda a paisagem do Rio já era bem visível, Copacabana, praia da Urca, o Pão de Acúcar, Cristo Redentor ao fundo. Não tinha mais volta. Podíamos finalmente trocar de roupa e arrumar a mala. 

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Ao leme cruzando a linha de chegada
Como prometido ao meu pai ainda em Londres antes da largada, o Patrick me colocou no leme na última meia hora para que pudesse ter a honra de conduzir o barco para a linha de chagada, já dentro da baía da Guanabara, bem aos pés do Pão de Açúcar. E foi as 11:41 hs, horário de Brasília, que vibramos muito ao cruzar a linha, como se fosse em primeiro lugar!! We made it, we made it! Chegamos em oitavo, mas o sentimento de vitória era bem maior, por passar quase um mês no mar, enfrentando todos os tipos de condição de mar e vento, calor, falta de sono, saudade, ansiedades, frustrações.
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Chegada na Marina
Algum tempo ainda passou até que pudéssemos desembarcar na Marina da Gloria, preparando o barco e arrumando a documentação para o desembarque. Foto oficial, instruções de desembarque, informações da cidade, etc. Tudo acho que demorou uns 15 minutos mas pareceu uma eternidade pra nós. Conseguia ver a minha família ali a poucos metros. E minha namorada que não via a quase 2 meses.  Quando finalmente pudemos descer do barco, saí do protocolo e corri para abraçar a Virginia. Achei que iria aguentar mas não deu. Caí aos prantos nos braços dela. Um choro misto de saudade, alívio e senso de realização. Ao abraçar meus pais não foi diferente. 
A jornada foi difícil. Dramática em alguns momentos com as últimas 12 horas relembrando o pesadelo dos Doldrums. Agora, depois de tudo, tenho certeza em dizer que foi melhor assim. 
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Pagando a primeira rodada.
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A primeira refeição em terra. Comendo um belo e merecido churrasco.
 
Lat: 19o 00’- Sul
Long: 038o 45’ – Oeste

Ao sul do Arquipélago de Abrolhos

Ontem foi mais um dia especial pra mim a bordo. Consegui fazer uma das coisas que na minha mente estava faltando para tornar esta experiência mais completa. Já estava pensando no assunto à vários dias com um pouco de receio. Não é algo que se faz todos os dias e nem com qualquer condição de tempo, mas de tempo em tempo é preciso fazê-lo. O skipper sempre pede por voluntários corajosos, e na ausência ele resolve o assunto.  Uma coisa é fazer no porto, com pouco vento, sem ondas e sem balanço.

Bom, o receio de altura teve que ficar de lado. A experiência de subir no topo do mastro de 28 metros de altura destes barcos no meio do mar com um imenso spinnaker no alto falou mais alto. Precisávamos fazer uma checagem regular de segurança no equipamento do topo do mastro e também trocar a adriça que segura o spinnaker no alto. Já estávamos com a vela no alto por mais de 48 horas, e não há como prever o desgaste dos cabos e polias sem subir pra conferir. Além disso, precisávamos colocar algo para evitar o desgaste das adriças, que agora corriam por fora do mastro e não mais por dentro, depois que perdemos duas adriças por um desgaste misterioso dentro do mastro que fez romper um cabo 15mm de diâmetro mais forte que aço.

Fui o único voluntário. O que é normal. Em metade das vezes que ele pediu por voluntários a resposta foi negativa e ele teve que fazer o serviço. Pouca gente se sente confortável, ou melhor dizendo, corajosa o suficiente, para passar cerca de 1 hora pendurado e balançando no alto.

Subi, aliás, me subiram mastro acima fazendo diversas paradas para que eu pudesse mudar a minha linha de segurança, que me mantinha preso ao mastro, por diversos pontos diferentes. Sempre me agarrando ao mastro com braços e pernas. Cheguei no topo e fui logo fazer as checagens e trocar a adriça. Vento de 15 a 17 nós, mar relativamente calmo, mas que ainda fazia o mastro balançar. Trocar a adriça foi algo relativamente simples. Coloca-se a nova junto com a primeira, tenciona-se a nova até que a antiga fique folgada e retira-se a antiga. Simples. Mas quando se pára pra pensar nas forças envolvidas nestes cabos e ver aquela vela monstruosa e cheia de pressão pendurada só por aquele cabo, faz você ter bastante cuidado com cada movimento. Depois consegui tirar algumas fotos e curtir a vista realmente impressionante. É possível ver exatamente todas as rajadas de vento pelas suas marcas na água. Apesar do balanço, é muito calmo e sereno. Ver o barco lá embaixo, pequeno, parecendo de brinquedo deslizando pela água, te deixa uma sensação de poder interessante. Gostei!

Após passarmos quase 70 horas com o nosso code 2 no alto, o baixamos e seguimos com uma configuração em “asa de pombo” (uma vela para cada lado do barco), correndo praticamente a favor do vento para fazer um percurso mais curto até o nosso próximo destino em Cabo Frio.

Durante a tarde, nos bancos de areias de Abrolhos, começamos a avistar as prometidas baleias, sendo que as duas primeiras literalmente tivemos que evitar uma colisão certa, desviando e passando a uns 10 m de distância. Elas simplesmente não saíram do caminho e também não afundaram. Impressionante. Certamente se o skipper não estivesse no deck e no leme naquele momento, seríamos notícia nos jornais. Foi então que começou mais um trabalho no deck, o de “whale spotter”, ou avistador de baleias, que consiste basicamente em sentar na proa e procurar baleias em curso de colisão conosco.

Desviamos de mais algumas enquanto outras fizeram questão de passar ao lado do barco e fazer show. Uma passou por nós o tempo todo como se estivesse acenando. Inesquecível.  Ao todo avistamos mais de 15 baleias próximas a nós, sendo a metade com real potencial de colisão. Apesar de muito bonito o show, a apreensão é grande para o que pode acontecer durante a noite. Teremos um farol ligado 100% do tempo, mais só isso não garante a nossa passagem segura por aqui. Contaremos com a sorte também.

Na vida a bordo o cardápio repetindo e agora faltando algumas coisas na cozinha, como por exemplo, macarrão, fica cada vez mais difícil ter prazer durante as refeições. Agora posso eleger os 3 piores pratos que comi ou até deixei de comer aqui. É um páreo duro saber qual é o pior:

1 – arroz com salsicha e abacaxi enlatados e mel. – Impossível repetir e refuguei no primeiro dia

2 – risotto (com tudo o que é possível imaginar de enlatado) – também refuguei uma vez. Pão com margarina era melhor opção

3 – arroz com molho pesto e bacon (faltou macarrão) – triste combinação

Não vejo a hora de chegar no Rio e correr pra uma churrascaria rodízio e comer um boi inteiro.

 
Lat: 10o 45’- Sul
Long: 034o 52’ – Oeste

Um pouco abaixo da latitude de Maceió.

A monotonia dos últimos dias foi tanta que faltou assunto para escrever. É, há momentos monótonos sim na vida a bordo. Tirando a passagem do equador, desde que saímos dos Doldrums, seguimos rumando SSO em direção à costa brasileira em orça com o barco bastante inclinado e batendo contra as ondas nas primeiras 48h. Foram 5 dias nesta condição chata. Até beber água em copo era tarefa arriscada dentro do barco. E no deck não havia muito que fazer, basicamente era seguir o rumo estabelecido no leme. E com o watermaker vazando cada vez mais, passamos mais tempo tirando água dos porões que velejando. Muito chato! Alguns vão achar estranho ou mesmo me criticar, mas uma coisa é ficar algumas horas nesta condição em uma regata curta, outra coisa são dias e dias assim. Não víamos a hora de ver a mudança tão aguardada do vento para leste que permitiria um ângulo favorável para subirmos os nossos spinnakers e descer a costa brasileira com mais velocidade.

Ontem a tarde, dia 23 a bordo, finalmente a monotonia foi quebrada. Era o meu turno da manhã e ainda estava com watch leader interino, quando o Patrick subiu no deck. Olhamos mais uma vez o vento. Velocidade, direção, rajadas. Estávamos no limite de não conseguir velejar o barco com spinnaker no rumo desejado, uma linha reta em direção à Abrolhos no sul da Bahia, distante cerca de 500 milhas. Discutimos as opções mais uma vez e eu disse que gostaria de tentar. Então estava decidido! Kite up!!

Subimos a Code 2, uma vela um pouco menor que a code 1, mas que seria mais adequada pelo ângulo que estávamos, com vento aparente a cerca de 60 graus da nossa proa. Seguimos velejando e orça folgada, arribando um pouco nas rajadas para evitar que a vela ficasse na água fazendo bons 11 a 12 nós.

Agora sim tínhamos diversão, trabalho pra no mínimo 3 pessoas no deck e muita concentração no leme. Acho... melhor dizendo, tenho certeza que a maioria discorda de mim. Não gostam de velejar estes spinnakers. Justamente porque dá mais trabalho, há risco de “colapsar” a vela que pode enrolar mastreação e rasgar e risco de jaibe quando estamos muito empopados. Dá pra ver o pânico nos rostos dos que vieram pra curtir o sol, pegar um bronzeado, e ler um livro no deck. Ops! Pronto, falei! E a noite as coisas ficam muito mais interessantes, já que não dá pra ver as ondas e as rajadas chegando.

Pra mim é pura diversão. Nos últimos dias não aguentava ficar mais de meia hora no leme de tanto sono. Agora fico até duas horas se deixarem. Trabalho constante para compensar as subidas e descidas das ondas e aproveitar uma pequena surfada quando possível. Ver o barco adernar (inclinar) e acelerar nas ondas e chegar ao limite de colapso do spinnaker.  Disto sim, vou sentir muita falta. Estamos já a mais de 24 horas com o kite e espero não ter que baixa-lo ate chegar na Marina da Gloria no Rio.

Agora já na metade da descida da costa brasileira, começo a sentir que estou chegando em casa. Não sei se é o cheiro do vento, a temperatura, o mar, nascer e por do sol, os 'enxames' de golfinhos que acompanham o barco por horas e horas, o céu noturno do hemisfério sul, ou tudo isso junto. Gostaria de ter passado bem pertinho de Fernando de Noronha, que ficou a mais de 65 milhas a boreste, ver a ilha e relembrar bons momentos que tive com minha namorada há alguns anos quando velejamos até lá para passar o Reveillon.

Agora com o kite (spinnaker) no alto, nos igualamos aos outros barcos e podemos brigar por melhores posições. Temos o Team GB na nossa cola, chegando a ser visível no horizonte em alguns momentos e dois barcos que ainda podemos alcançar à nossa frente, o “Derry” e o Henri Lloyd. Temos uma estratégia de velejar mais dentro da costa, enquanto os outros rumam mais à leste e distante da costa, para percorrer uma menor distância até o nosso ponto de virada em Cabo Frio, RJ, e aproveitar um pouco mais da corrente brasileira. Se tudo der certo, a previsão de chegada ao Rio de Janeiro fica entre dia 6, domingo, na parte da tarde e dia 7, segunda-feira.