A segunda parte do curso 3 semanas no mar acabou na última sexta, dia 10 de maio.
Como era esperado, foi pesado, muito, mas muito pesado! E como já fazia tempo (6 meses) que tinha passado pelo primeiro curso, tive que relembrar tudo num tempo recorde. Os velejadores podem me perguntar,  mas velejar é velelar em qualquer lugar do planeta. É e não é ao mesmo tempo. O problema é o tamanho das coisas, que requerem um sequencia de ações bem especifica e com alguns fatores complicadores, também devido ao tamanho das coisas. Complicadores como runners back stays, preventer para a vela mestra, velas de tempestade, etc. Para levantar o pau de spinnaker são necessárias 6 pessoas, cada um com uma função específica e trabalhando em conjunto, pra colocar um reef, 5 pessoas, Pra fazer uma troca de vela, 6 pessoas. E às vezes ainda juntam as coisas, como colocar um reef e trocar uma vela na proa. Neste momento temos 10 ou 12 pessoas trabalhando ao mesmo tempo e às vezes lutando pelas catracas, por isso tudo tem que funcionar como um bom relógio, e todos devem saber exatamente o que fazer e o que os outros estão e vão fazer. Durante os nosso exercícios pudemos ver muito bem o progresso das evoluções quando baixamos o tempo de tirar um reef da vela mestra de 8 para menos de 4 minutos.
Outro ponto forte de treinamento foi a experiência de velejar em ventos de foça 9, passando de 40 nós e ondas de até 4 metros. As manobras nestas condições tem alguns fatores complicadores como a dificuldade de ficar em pé e principalmente a comunicação que só possível por sinais, já que não se escuta quem está a mais de 2 ou 3 metros de distância. 
Também é impressionante ver o estado que o mar fica e quão perto de uma condição de morte por hipotermia a gente fica, pois numa situação de homem ao mar, naquelas condições, é muito fácil de ser perdido com o barco fazendo mais de 10 nós de velocidade e muitas vezes com um spinnaker, até o barco ser parado já vai uns 400 metros, e um resgate pode demorar mais de 30 minutos. E nós treinamos exaustivamente os resgates de homem ao mar. Acreditem, não queiram estar numa situação destas. Mas ao mesmo tempo, ver aquele barco de mais de 20 metros tendo a proa inclinada para baixo uns 25 graus, se preparando para surfar uma onda de 4 metros, não tem preço.
Trimar que gennaker monstruoso, também é uma experiência indescritível, mas que também tem preço alto, pois baixá-lo e dobrá-lo não é tarefa fácil. Acho que entre baixar a vela e dobrá-la completamente demorou 30 minutos com 8 pessoas trabalhando.

Os melhores momentos deste curso podem ser vistos link abaixo.
http://www.flickr.com/photos/togneri/sets/72157633481293738/

Agora é recuperar as energias para mais uma semana de treinamento, que desta vez, será totalmente offshore. Serão 6 dias trabalhando em turnos de 4 horas, dia e noite, não importando as condições de vento e mar. Agora, é pra valer...


John, Sara e eu curtindo o popa em ventos de mais de 40 nós
 
Terceiro dia.
Dia de "descanso".
Hoje demos uma parada no trabalho no mar para fazer o curso de sobrevivência no mar, que ao contrario do que se imagina, começa muito antes de abandonar a embarcação, ainda em terra. Começando pela escolha dos esquipamentos de segurança, do barco e pessoais, passando pelos procedimentos e, na minha opinião a mais importante, o comportamento e zelo pela segurança. E como disse o instrutor disse (com péssimo sotaque que até os ingleses não entendiam), para ser sobrevivente, não basta entrar na balsa salva-vidas (que não é nada fácil de tanta M que pode acontecer até a balsa)é preciso ser resgatado com vida. E toda a preparação tem muito impacto nisso.
Ainda relacionado a segurança, realizamos o safety check do barco, um check list de 12 páginas, que dividido em 5 grupos demoramos 3 horas pra finalizar. Nele está incluído checar todas as bombas de todos os tipos, seacocks, documentos, registros de inspeção, salva-vidas (todos revisados), luzes, salvatagem, manuais, etc. Tudo deve estar em seu lugar, que deve ser conhecido por todos, ordenado e funcionando ou pronto para uso. Um trabalho colossal. E essa é apenas uma das tarefas que devem ser realizadas antes de cada etapa da competição.
Ainda houve tempo para apresentar ao pessoal as paçoquinhas brasileiras, e adoraram. Pessoalmente , considero o alimento perfeito em barcos, principalmente nos momento de tempo ruim, onde cozinhar é difícil, pois devolve a energia rapidamente, de fácil consumo e digestão, e ainda contém alguma proteína.

Amanhã é gennaker pra cima e um machrace com o outro barco do Level 2. Não sei se vou ter energia pra escrever no final do dia, e se formos pra mar aberto, só terei contato com terra na quinta-feira. Once more, wish me luck!
 
Chegamos ao final do segundo dia do level 2, basicamente uma revisão de todo o level 1, numa velocidade de assustar. É muita informação tentando voltar à cabeça e aos músculos em tão pouco tempo. Novamente a rotina começa as 6:30hs e termina às 20hs, e após isso o jantar e uma palestra até as 22 hs... Não é nada fácil, tinha me esquecido de quão pesada é a rotina. Mas também se não tivera esquecido, talvez não voltaria.... Well, é melhor se acostumar... Encontrei o outro brazuca que vai participar da regata e está fazendo uma revisão de 3 dias. Ontem a noite nos perguntávamos porque diabos inventamos de fazer algo assim. Loucos com certeza! Pelo menos não me sinto sozinho com estes questionamentos. Hoje mesmo estava no compartimento onde guardamos todos os cabos e o Jason que vai fazer tosa a volta ao mundo comentou após terminarmos de guardar todos os cabos, defensas, velas que pesam 100kgs cada, "um ano inteiro disso??" É... com certeza não sou só eu que se questiona por aqui.
Ademais, do trabalho pesado, a comunicação não é fácil, tendo que me acostumar novamente com todos os termos em inglês, mas até acho q me saí bem liderando uma e evolução de reefing, que aqui demora uns 8 minutos.
Novamente, havia esquecido como tudo é muito pesado, subir e descer as velas todos os dias, várias vezes ao dia, trocar velas com ventos de quase 30 nós, numa manobra que leva 10 minutos, mas de tão intensa, parece que leva 1 hora.
Bom, uma coisa não posso negar, sentir esse barcão de 68 pes e 30 ton andando a mais de 10 nós num orça folgada subindo e descendo em ondas de 2 m, é muito bom mesmo, e por enquanto supera todo o trabalho pesado numa temperatura de 10 graus.
 
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Cheguei a Portsmouth já a noite no 1 de maio após 20 horas de viagem desde Florianópolis. Obviamente cansado, já que das 11 horas de voo e mais 3  de ônibus e trem devo ter dormido umas 4 horas. Não deu pra fazer muita coisa, só um bom banho e sair pra comer algo. E como já era mais de 9 da noite não tinha muita opção. Fui logo pra mais arriscada, arriscar um Kebab de cordeiro, comida tradicional da Inglaterra, equivalente ao taco mexicano, num "take a way" de um turco ao lado do hotel. Desta o Emerson, meu professor de inglês vai ficar orgulhoso... E tava bom. Tanto que acho que vou comer hoje a noite também.
Hoje, dia 2, tratei logo de comprar o chip pra usar internet por aqui, uma 3G que equivale a uma "5G" no Brasil. Depois dar um passeio pela cidade e aproveitar para entender como é a Inglaterra na primavera.... Tem sol desde as 5:30 da manhã até as 8:30 da noite, temperatura amena, 13C, e um verde diferente do Brasil. Tudo bem diferente do final de outono que conheci no ano passado.

Ainda comprei algumas coisas que estavam faltando para o meu "kit" da travessia. Sacos impermeáveis, uma jaqueta, luvas, etc. E não poderia de deixar escapar desta vez outra tradição daqui, comer o fish and chips, de um take away obviamente, e comer sentado no banco da praça, nice! Agora sim sei o que é comer barato por aqui, mais barato até que no Brasil...
Bom, como hoje era pra descansar, vou deixar pra visitar o resto no dia 12 e 13 quando terei uma folga entre os treinamentos, depois vou carregar as fotos de Portsmouth num album especial, mas ainda hoje devo me encontrar com o Emanuel, o outro brasileiro participante da competição, tomar umas e conversar sobre o desafio que estar por vir.
Amanhã começa o Level 2 com 8 dias de curso e mais um treinamento de sobrevivência no mar. 
Wish me luck!!