No último dia 08/12 aconteceu a 44a edição Volta à Ilha de Sta. Catarina, uma regata de aproximadamente 65nm ao redor da ilha com largada em direção ao sul e chegada sob a ponte Hercilio Luz. Uma competição relativamente longa onde os barcos levam em média mais de 12 horas para completa-la, dependendo das condições do vento. Não foi o nosso caso... A bordo do Carino, um main 34, o nosso desafio durou 27 horas! Graças à ausência de vento, situação na qual, pela própria natureza dos barcos à vela, é bem difícil andar pra frente. Mas valeu a pena! Não só pelo belíssimo nascer do Sol que tivemos naquele domingo em frente a uma das mais badaladas praia de Floripa e do Brasil, mas também pelo lugar mais alto no podium em nossa classe, com 6 barcos inscritos. 
Todo este tempo a bordo com mais 7 tripulantes (o que num barco de 34 pés dá uma densidade populacional bem maior que nos barcos da Clipper) foi mais uma boa preparação para o que vou enfrentar durante a travessia do Atlântico. Não apenas pela obvio contato com o mar, barcos à vela e regatas, mas principalmente pelo "treino psicológico". Há quem pense o contrário, mas a cada dia eu entendo o que dizem os experimentados em competições transoceânicas, que, para uma tripulação digna do lugar mais alto do podium, muito mais importante que um grande preparo físico ou habilidades no manejo com as velas, são o trabalho em equipe da tripulação e seu elevado moral. E no que uma "regatinha" com 27 horas de duração pode se assemelhar ou sevir de preparação para um desafio 30 vezes maior? 
Eu explico:
Se verificarmos o resultado final, vencemos por algo como 3,5% no tempo! Na vida de engenharia (meu mundo) 3,5% num resultado de um ensaio muitas vezes é desprezado, é arredondamento. Ou seja, não é muito, às vezes quase nada. Basta imaginar que a diferença do primeiro para o segundo lugar foi de 3,5% na regulagem das velas, no trabalho com as ondas, na negociação com a merreca de vento, no esporro, e mais importante de tudo, no moral da tripulação. É muito fácil perder o foco em 3,5%. E durante a Clipper é muito fácil ver barcos cruzando a linha de chegada com menos de 1% de diferença no tempo, e às vezes com menos de 1 hora de diferença após 4 semanas contínuas de competição. E duas palavras podem definir o diferencial em vitórias apertas como as da Clipper ou a  que tivemos na Volta à Ilha: PERSISTÊNCIA E ATITUDE.  

 Imagem
A persistência foi que nos garantiu a motivação, em primeiro lugar, para terminar a prova, e em segundo para não esmaecer e negligenciar os pequenos detalhes, não deixar escapar por entre os dedos topo do podium. E foi a atitude que traduziu a persistência em ações positivas durante o extenuante percurso. Lembro claramente, pouco antes da alvorada, a baixa no moral por imaginarmos que estávamos em último, e pouco tempo de depois a injeção de adrenalina direta no coração quando descobrimos que não estávamos em último, e sim muito perto do principal adversário. E com o moral de volta aos níveis de 20 horas atras, começamos uma caçada voraz ao imediato adversário. Tenho certeza que foi nas decisões  3,5% melhores que tomamos durante a noite  que garantimos o melhor resultado, mesmo sem saber da posição dos adversários, e não perdendo a motivação após ver todo mundo nos alcançar e ultrapassar na primeira "desventada" que tivemos apenas 3 horas após a largada, na qual 3 barcos da nossa classe declaram abandono da competição, mesmo estando à nossa frente. Ainda não é com conhecimento de causa, mas sei que teremos vários momentos como estes durante a travessia do Atlântico, principalmente nas proximidades do Equador onde a falta de vento é normal e o barco ao lado pode nos ultrapassar quase sem explicação, enquanto ficamos ao sabor do destino à espera de uma rajada salvadora, jogando fora semanas de trabalho duro.
Mas e porque eu estou tão preocupado com a vitória e o sucesso, alguns podem pensar. Ok, ganhar a regata é legal, a gente comemora, massageia o ego. Mas este não é o principal propósito. A razão disso é simplesmente porque a vida é assim! E não falo somente vitória ou sucesso no trabalho ou carreira, onde a semelhança fica obvia, e possa parecer um tanto quanto fútil. Mas sim em outros aspectos muito importante da vida a persistência e a atitude podem fazer a diferença, como nos relacionamentos, na educação dos filhos, nos momentos difíceis de doença, na perda inevitável de um ente querido. Acredito que todos tenham uma história de vida se assemelha com os momentos desta regata. PERSISTÊNCIA E ATITUDE! 
E são com estes pequenos exercícios de final de semana, nas competições que participamos, que ajudam a me preparar para a travessia e tornar-me uma pessoa melhor e mais preparada para os próximos desafios da vida. 
Um especial abraço à tripulação do Carino: Moacir, Guilherme, Mario Julio, Bóris, Caio, Carlão e Dalton pela companhia.

O próximo desafio, inesperado, na preparação para a regata na metade de 2013 já está batendo à porta.... Mas isso fica para o próximo post.

E pra quem quiser mais algumas fotos desta última regata, segue o link do álbum no Flickr:
http://www.flickr.com/photos/togneri/sets/72157632212232428/


Largada da 44a Volta à Ilha a bordo do Carino




Leave a Reply.