Imagem
Por do Sol contornando Cabo Frio - RJ
Os últimos dias serviram como provação final nesta travessia quase épica. Foi como se Netuno quisesse ter certeza de que éramos dignos de participar de um seleto grupo de pessoas que tem uma travessia oceânica para contar. Mas olhando pelo lado positivo, foi a "cereja do bolo". 
O que eu temia para o nosso final aconteceu: pegamos a nossa primeira baixa pressão do atlântico sul, que trouxe ventos fortes e em sentido contrário a uma tripulação já bem cansada, física e emocionalmente. Já estávamos na latitude de Vitória - ES quando o vento começou a subir e mudar de  direção de nordeste para noroeste. Como o vento de noroeste ainda entrava pela lateral do barco ainda conseguimos desenvolver boa velocidade e surfar algumas ondas, sendo o último momento de grande diversão até a chegada no Rio. Comecei então a minha última tentativa de bater o meu recorde de velocidade do barco de 19,5 nós, mas precisava de ondas um pouco maiores que os 2,5m que tínhamos. Marquei 18 nós, ainda com o code 2 no alto, em uma boa onda e por uns 10 segundos, nada mal. 
No radio VHF ouvíamos os avisos de previsão do tempo avisando o que já sabíamos, ventos fortes a muito fortes (força 7 a 8) de noroeste a sudoeste para as próximas 24 horas. Aquele vento de noroeste já era o primeiro sinal da baixa pressão sugando o ar da frente quente com mais força. Por volta do meio dia o vento foi baixando até que parou completamente. Na minha vida de velejador de baía e lagoa em Florianópolis já tinha visto aquela situação inúmeras vezes mas com muito menos intensidade. Aquela calmaria só significava uma coisa: o vento ia mudar para o quadrante sul e com força. Foi então que baixamos definitivamente o nosso spinnaker nesta viagem quando a primeira bafagem de suldoeste nos atingiu. E menos de uma hora depois já tínhamos reduzido metade da potência de nossa vela mestra. Agora era vento contra. E forte. 20 a 25 nós. Mais tarde, durante o início da noite, o vento passou para 30 nós com rajadas de 40 nós e as ondas seguindo o aumento do vento, agora com mais de 3 metros de altura. Tudo vindo exatamente do sentido do nosso destino. Barco a vela não não consegue velejar contra o vento, e portanto não conseguíamos manter o melhor rumo em direção ao Rio, sendo agora mais em direção ao sul da África. As ondas contrárias faziam o barco bater forte como nunca vimos antes. Nas maiores ondas, quando subíamos nelas, praticamente metade do barco ficava fora da água para então cair e bater com enorme força no fundo do buraco atrás da onda. Para quem está no leme, principalmente durante a noite, tem que segurar para não cair de tão forte que são as pancadas e o ângulo de inclinação lateral que já colocava parte do deck na água e um dos lemes completamente fora da água. Para que estava dentro do barco a situação não era melhor, principalmente para quem estava em pé cozinhando. Sentíamos aquele frio na barriga, típico de grandes montanhas russas, logo antes da próxima pancada na água. E quando batia, o barulho era muito forte e tudo tremia. Nem é preciso dizer que dormir não era tarefa fácil. Também por causa do vento forte o nosso ângulo mínimo em relação ao vento não era mais de 50 graus, sendo agora de 70 graus, o que significava que era ainda mais difícil rumar em direção ao Rio de Janeiro. Víamos, pouco a pouco,  a nossa chegada sendo cada vez mais adiada. De tão ansioso que estava, fiquei mais de 2h seguidas no leme no meu turno da madrugada, tentando desenvolver mais velocidade e melhor ângulo em relação ao vento até que cansaço e o frio me derrubaram e quase caí do leme. Era hora de parar. 
Para quem dormia, ou melhor dizendo, tentava, mais um complicador. Estávamos no sul do Espírito Santo, em uma região de grande tráfego marítimo e de campos de exploração de petróleo, de acesso restrito, que nos obrigava a cambar (mudar o rumo do barco em relação ao vento para o lado oposto) constantemente. Nestes momentos, tínhamos que acordar os que estavam dormindo para avisar e evitar que eles caíssem de suas camas, atrapalhando bastante as 3 horas de sono entre os turnos.  Durante o dia 28 no mar, o vento baixou um pouco, mas ainda com rajadas de até 30 nós e contra o nosso rumo. Finalmente pudemos ver terra quando chegamos bem perto de Búzios e depois Cabo Frio. Cabo Frio era um grande marco para nós, pois assim que o cruzássemos poderíamos seguir em rumo direto para o Rio de Janeiro a cerca de 65 milhas dali, quase nada... Era o por do sol, o último desta travessia, quando finalmente o nosso último cabo, e eu ajudava, da mesa de navegação, o skipper (no leme) a determinar o melhor ponto em que poderíamos mudar novamente o rumo do barco em direção oeste, em bordo único direto ao Rio. A esperança de cruzarmos as 65 milhas e chegarmos ainda durante a madrugada ou com ou primeiros raios de sol foi pura ilusão. O vento começou a mudar novamente, agora em direção oeste, exatamente o rumo que queríamos. E depois baixou para quase zero. Que desespero.  O meu receio agora não chegar durante o dia 7 e não poder ver a minha namorada após quase 2 meses longe dela. E a situação não melhorou muito durante a noite, vento incerto, mudando de direção a cada hora, intercalando com períodos de calmaria.
 Imagem
Rio de Janeiro ao fundo - quase chegando!
No início da manhã começamos a avistar as montanhas do Rio. Mas estávamos quase parados. Menos de 20 milhas nos separam da linha de chegada. A agonia da noite seguiu durante toda a manhã com o vento firmando na última hora. Faltavam só 6 milhas. Toda a paisagem do Rio já era bem visível, Copacabana, praia da Urca, o Pão de Acúcar, Cristo Redentor ao fundo. Não tinha mais volta. Podíamos finalmente trocar de roupa e arrumar a mala. 

 Imagem
Ao leme cruzando a linha de chegada
Como prometido ao meu pai ainda em Londres antes da largada, o Patrick me colocou no leme na última meia hora para que pudesse ter a honra de conduzir o barco para a linha de chagada, já dentro da baía da Guanabara, bem aos pés do Pão de Açúcar. E foi as 11:41 hs, horário de Brasília, que vibramos muito ao cruzar a linha, como se fosse em primeiro lugar!! We made it, we made it! Chegamos em oitavo, mas o sentimento de vitória era bem maior, por passar quase um mês no mar, enfrentando todos os tipos de condição de mar e vento, calor, falta de sono, saudade, ansiedades, frustrações.
 Imagem
Chegada na Marina
Algum tempo ainda passou até que pudéssemos desembarcar na Marina da Gloria, preparando o barco e arrumando a documentação para o desembarque. Foto oficial, instruções de desembarque, informações da cidade, etc. Tudo acho que demorou uns 15 minutos mas pareceu uma eternidade pra nós. Conseguia ver a minha família ali a poucos metros. E minha namorada que não via a quase 2 meses.  Quando finalmente pudemos descer do barco, saí do protocolo e corri para abraçar a Virginia. Achei que iria aguentar mas não deu. Caí aos prantos nos braços dela. Um choro misto de saudade, alívio e senso de realização. Ao abraçar meus pais não foi diferente. 
A jornada foi difícil. Dramática em alguns momentos com as últimas 12 horas relembrando o pesadelo dos Doldrums. Agora, depois de tudo, tenho certeza em dizer que foi melhor assim. 
 Imagem
Pagando a primeira rodada.
 Imagem
A primeira refeição em terra. Comendo um belo e merecido churrasco.
 
Lat: 19o 00’- Sul
Long: 038o 45’ – Oeste

Ao sul do Arquipélago de Abrolhos

Ontem foi mais um dia especial pra mim a bordo. Consegui fazer uma das coisas que na minha mente estava faltando para tornar esta experiência mais completa. Já estava pensando no assunto à vários dias com um pouco de receio. Não é algo que se faz todos os dias e nem com qualquer condição de tempo, mas de tempo em tempo é preciso fazê-lo. O skipper sempre pede por voluntários corajosos, e na ausência ele resolve o assunto.  Uma coisa é fazer no porto, com pouco vento, sem ondas e sem balanço.

Bom, o receio de altura teve que ficar de lado. A experiência de subir no topo do mastro de 28 metros de altura destes barcos no meio do mar com um imenso spinnaker no alto falou mais alto. Precisávamos fazer uma checagem regular de segurança no equipamento do topo do mastro e também trocar a adriça que segura o spinnaker no alto. Já estávamos com a vela no alto por mais de 48 horas, e não há como prever o desgaste dos cabos e polias sem subir pra conferir. Além disso, precisávamos colocar algo para evitar o desgaste das adriças, que agora corriam por fora do mastro e não mais por dentro, depois que perdemos duas adriças por um desgaste misterioso dentro do mastro que fez romper um cabo 15mm de diâmetro mais forte que aço.

Fui o único voluntário. O que é normal. Em metade das vezes que ele pediu por voluntários a resposta foi negativa e ele teve que fazer o serviço. Pouca gente se sente confortável, ou melhor dizendo, corajosa o suficiente, para passar cerca de 1 hora pendurado e balançando no alto.

Subi, aliás, me subiram mastro acima fazendo diversas paradas para que eu pudesse mudar a minha linha de segurança, que me mantinha preso ao mastro, por diversos pontos diferentes. Sempre me agarrando ao mastro com braços e pernas. Cheguei no topo e fui logo fazer as checagens e trocar a adriça. Vento de 15 a 17 nós, mar relativamente calmo, mas que ainda fazia o mastro balançar. Trocar a adriça foi algo relativamente simples. Coloca-se a nova junto com a primeira, tenciona-se a nova até que a antiga fique folgada e retira-se a antiga. Simples. Mas quando se pára pra pensar nas forças envolvidas nestes cabos e ver aquela vela monstruosa e cheia de pressão pendurada só por aquele cabo, faz você ter bastante cuidado com cada movimento. Depois consegui tirar algumas fotos e curtir a vista realmente impressionante. É possível ver exatamente todas as rajadas de vento pelas suas marcas na água. Apesar do balanço, é muito calmo e sereno. Ver o barco lá embaixo, pequeno, parecendo de brinquedo deslizando pela água, te deixa uma sensação de poder interessante. Gostei!

Após passarmos quase 70 horas com o nosso code 2 no alto, o baixamos e seguimos com uma configuração em “asa de pombo” (uma vela para cada lado do barco), correndo praticamente a favor do vento para fazer um percurso mais curto até o nosso próximo destino em Cabo Frio.

Durante a tarde, nos bancos de areias de Abrolhos, começamos a avistar as prometidas baleias, sendo que as duas primeiras literalmente tivemos que evitar uma colisão certa, desviando e passando a uns 10 m de distância. Elas simplesmente não saíram do caminho e também não afundaram. Impressionante. Certamente se o skipper não estivesse no deck e no leme naquele momento, seríamos notícia nos jornais. Foi então que começou mais um trabalho no deck, o de “whale spotter”, ou avistador de baleias, que consiste basicamente em sentar na proa e procurar baleias em curso de colisão conosco.

Desviamos de mais algumas enquanto outras fizeram questão de passar ao lado do barco e fazer show. Uma passou por nós o tempo todo como se estivesse acenando. Inesquecível.  Ao todo avistamos mais de 15 baleias próximas a nós, sendo a metade com real potencial de colisão. Apesar de muito bonito o show, a apreensão é grande para o que pode acontecer durante a noite. Teremos um farol ligado 100% do tempo, mais só isso não garante a nossa passagem segura por aqui. Contaremos com a sorte também.

Na vida a bordo o cardápio repetindo e agora faltando algumas coisas na cozinha, como por exemplo, macarrão, fica cada vez mais difícil ter prazer durante as refeições. Agora posso eleger os 3 piores pratos que comi ou até deixei de comer aqui. É um páreo duro saber qual é o pior:

1 – arroz com salsicha e abacaxi enlatados e mel. – Impossível repetir e refuguei no primeiro dia

2 – risotto (com tudo o que é possível imaginar de enlatado) – também refuguei uma vez. Pão com margarina era melhor opção

3 – arroz com molho pesto e bacon (faltou macarrão) – triste combinação

Não vejo a hora de chegar no Rio e correr pra uma churrascaria rodízio e comer um boi inteiro.

 
Lat: 10o 45’- Sul
Long: 034o 52’ – Oeste

Um pouco abaixo da latitude de Maceió.

A monotonia dos últimos dias foi tanta que faltou assunto para escrever. É, há momentos monótonos sim na vida a bordo. Tirando a passagem do equador, desde que saímos dos Doldrums, seguimos rumando SSO em direção à costa brasileira em orça com o barco bastante inclinado e batendo contra as ondas nas primeiras 48h. Foram 5 dias nesta condição chata. Até beber água em copo era tarefa arriscada dentro do barco. E no deck não havia muito que fazer, basicamente era seguir o rumo estabelecido no leme. E com o watermaker vazando cada vez mais, passamos mais tempo tirando água dos porões que velejando. Muito chato! Alguns vão achar estranho ou mesmo me criticar, mas uma coisa é ficar algumas horas nesta condição em uma regata curta, outra coisa são dias e dias assim. Não víamos a hora de ver a mudança tão aguardada do vento para leste que permitiria um ângulo favorável para subirmos os nossos spinnakers e descer a costa brasileira com mais velocidade.

Ontem a tarde, dia 23 a bordo, finalmente a monotonia foi quebrada. Era o meu turno da manhã e ainda estava com watch leader interino, quando o Patrick subiu no deck. Olhamos mais uma vez o vento. Velocidade, direção, rajadas. Estávamos no limite de não conseguir velejar o barco com spinnaker no rumo desejado, uma linha reta em direção à Abrolhos no sul da Bahia, distante cerca de 500 milhas. Discutimos as opções mais uma vez e eu disse que gostaria de tentar. Então estava decidido! Kite up!!

Subimos a Code 2, uma vela um pouco menor que a code 1, mas que seria mais adequada pelo ângulo que estávamos, com vento aparente a cerca de 60 graus da nossa proa. Seguimos velejando e orça folgada, arribando um pouco nas rajadas para evitar que a vela ficasse na água fazendo bons 11 a 12 nós.

Agora sim tínhamos diversão, trabalho pra no mínimo 3 pessoas no deck e muita concentração no leme. Acho... melhor dizendo, tenho certeza que a maioria discorda de mim. Não gostam de velejar estes spinnakers. Justamente porque dá mais trabalho, há risco de “colapsar” a vela que pode enrolar mastreação e rasgar e risco de jaibe quando estamos muito empopados. Dá pra ver o pânico nos rostos dos que vieram pra curtir o sol, pegar um bronzeado, e ler um livro no deck. Ops! Pronto, falei! E a noite as coisas ficam muito mais interessantes, já que não dá pra ver as ondas e as rajadas chegando.

Pra mim é pura diversão. Nos últimos dias não aguentava ficar mais de meia hora no leme de tanto sono. Agora fico até duas horas se deixarem. Trabalho constante para compensar as subidas e descidas das ondas e aproveitar uma pequena surfada quando possível. Ver o barco adernar (inclinar) e acelerar nas ondas e chegar ao limite de colapso do spinnaker.  Disto sim, vou sentir muita falta. Estamos já a mais de 24 horas com o kite e espero não ter que baixa-lo ate chegar na Marina da Gloria no Rio.

Agora já na metade da descida da costa brasileira, começo a sentir que estou chegando em casa. Não sei se é o cheiro do vento, a temperatura, o mar, nascer e por do sol, os 'enxames' de golfinhos que acompanham o barco por horas e horas, o céu noturno do hemisfério sul, ou tudo isso junto. Gostaria de ter passado bem pertinho de Fernando de Noronha, que ficou a mais de 65 milhas a boreste, ver a ilha e relembrar bons momentos que tive com minha namorada há alguns anos quando velejamos até lá para passar o Reveillon.

Agora com o kite (spinnaker) no alto, nos igualamos aos outros barcos e podemos brigar por melhores posições. Temos o Team GB na nossa cola, chegando a ser visível no horizonte em alguns momentos e dois barcos que ainda podemos alcançar à nossa frente, o “Derry” e o Henri Lloyd. Temos uma estratégia de velejar mais dentro da costa, enquanto os outros rumam mais à leste e distante da costa, para percorrer uma menor distância até o nosso ponto de virada em Cabo Frio, RJ, e aproveitar um pouco mais da corrente brasileira. Se tudo der certo, a previsão de chegada ao Rio de Janeiro fica entre dia 6, domingo, na parte da tarde e dia 7, segunda-feira.

 
 Imagem
Foto: Brian Carlin
Lat: 00o 00’- EQUADOR!
Long: 030o 37’ – Oeste

Cruzando o equador

Domingo, 29 de setembro de 13.

Num bom domingo, acordaria mais tarde, e se tivesse sol, provavelmente sairia para uns 50 km de bicicleta e talvez almoçar num lugar legal. Já é um bom programa. Mas neste domingo fiz algo diferente, bem diferente. CRUZEI O EQUADOR VELEJANDO!!

Não acordei tarde, porque era a minha de vez de pegar o turno da manhã, das 07hs às 13hs. Dia ensolarado, temperatura ao redor dos trinta graus, brisa fresca, barco trimado, pouca onda, velejando em orça apertada (o mais próximo que podemos fazer em relação ao vento) rumando direto para Fernando de Noronha. Logo cedo ouvimos o convite do skipper a Netuno para vir a bordo para pedirmos boa passagem por seus domínios e para julgar os não iniciados nesta tradicional travessia. Netuno respondeu, como esperado, e nos prometeu uma passagem segura desde que oferecêssemos algo de muita preciosidade para nós e os novatos sejam iniciados sem piedade. A cerimônia então foi marcada para logo depois do almoço....

Exatamente às 08:29hs, horário de Brasília, saímos do hemisfério norte e demos mais um passo para perto de casa, agora com o GPS mostrando latitudes crescentes do lado sul. Vibrei bastante. Uma pequena comemoração aconteceu entre os sortudos acordados e no deck. Sascha teve a honra de conduzir o barco por este tradicional marco. Não tinha muita expectativa por este momento antes de iniciar a competição, afinal apenas uma linha, uma marcação geográfica. A água não muda de cor, o céu também não e a brisa também é a mesma. Mas agora, depois 21 dias seguidos no mar e 45 longe de casa, passando por diversas provações, como calor, enjôo, privação de sono, sede, saudade, esgotamento físico, um pouco de medo, e principalmente pelos impiedosos Doldrums, esta passagem toma uma valor mais que especial e certamente inesquecível. A água não mudou de cor ou de temperatura, mas a sensação de conquista sim. Agora sim, me sinto honrado e digno de ser julgado por Netuno.

Às 13 horas teve início a cerimônia com a chegada de Netuno que sentou bem à popa do barco, para julgar e receber tributo dos novatos. Cada um de nós pagou com um banho de suas águas sagradas, incluindo aí o nosso skipper, o Patrick e o nosso câmera man, o Brian, dois velejadores muito experientes que dedicaram toda a sua vida ao mar, mas que até então não haviam cruzado esta mítica linha. Isto tornou a comemoração mais especial. Ainda como tributo, oferecemos uma generosa quantidade de nosso mais precioso néctar, um Old Pulteney envelhecido 12 anos. Com o restante, brindamos à conquista. Certos agora que ainda melhores ventos virão!

 
Lat: 02o 34’- Norte
Long: 028o 40’ – Oeste

A 100 milhas  dos Penedos de São Pedro e São Paulo. Entrando em águas brasileiras.

Amanhã cruzamos o Equador!

Ontem à tarde finalmente pudemos dizer: “Estamos livres do Doldrums!” A estratégia de ir seguindo para suldeste (quando possível) deu mais resultado pois conseguimos ventos mais cedo que a maioria dos outros barcos. Só não foi perfeita, pois os três barcos que estavam mais a leste, PSP, Quindao, e Jamaica, desacreditados e nas últimas posições até poucos dias atrás, fizeram a “rota de ouro” e agora são os 3 barcos mais próximos da linha de chegada. Toda esta mudança em pouco mais de 48 horas. Da mesma maneira, o barco em entrou em primeiro nos Doldrums, o Mission Performance, agora luta para sair da região de poucos e incertos ventos nas últimas colocações.

A estratégia que ajudei a definir com o skipper, agora é tentar fazer o percurso mais ao sul possível (que o vento permite) e tentar passar mais a leste possível de Fernando de Noronha e ter alguma vantagem com a Corrente a Guiana e no ângulo do vento para descer a costa brasileira. O vento ainda sopra de suldeste e nos mantêm nesta inconfortável e lenta orça apertada, já que o nosso melhor ângulo de orça em relação ao vento é 55 graus, que faz a nossa data de chegada ser postergada cada vez mais, que agora tem como melhor prognóstico, dia 7 de outubro.  No entanto, como estamos ainda a leste de outros barcos, temos uma vantagem tática importante pois eles terão que rumar mais contra o vento e a corrente da Guiana. Vamos lutar por um quarto lugar na linha de chegada.

Ontem também foi mais um dia de eu e a Sue sermos “mães” e cozinhar o dia todo pra 21 pessoas. Como novidades, introduzimos um pão de salame e um pão doce de chocolate e baunilha, que foram muito bem apreciados e elogiados no café da manhã de hoje. Como recompensa tomei o meu banho à noite na popa do barco com água salgada em torno de 30 graus Celsius e enxágue com água doce. Após suar tanto que só fui ao banheiro 2 vezes durante  o dia, foi um alívio merecido. A noite inteira, ou quase, de sono também ajudou, apesar do calor e do ângulo de 30 graus devido à posição do barco em relação ao vento, em orça apertada. Poderia regular a cama para compensar o ângulo do barco, mas se houvesse uma cambada (quando viramos e mudamos o vento de um lado para o outro do barco inclinando-o na posição oposta), intencional ou não (ainda não confio em certas pessoas no leme, principalmente a noite), certamente cairia de uma altura de 1,70m no chão. Achei melhor dormir metade encostado no colchão, metade na parede.

  Na vida à bordo, o watermaker vai “segurando as pontas”, vazando agora cerca de 70% da sua capacidade de produção para os porões do barco, que devem ser drenados manualmente a cada hora, nos sobrando cerca de 15 litro/hora para consumo. Os banhos estão racionados (não por decisão do skipper, mas por senso comum da tripulação) a 3,5 litros por pessoa. Ele vai ter que agüentar mais uma semana.

A orça apertada faz com que ângulo de cerca de 30 graus, o barulho e as pancadas da proa nas ondas dificultem bastante o trabalho na cozinha e até mesmo para caminhar no barco e ir ao banheiro. O desgaste da tripulação é evidente e diversos pequenos atritos e discussões no trabalho no deck já aconteceram.  Ainda não estamos no ponto de esconder as facas do barco, mas eu durmo com a minha, rsrs. Gostaria de ver mais entusiasmo com a corrida em si por parte da maioria dos tripulantes. São 20 tripulantes, 20 cabeça, 20 objetivos e metas diferentes. E este está sendo pra mim o maior desafio da convivência à bordo. É muito frustrante ver as coisas erradas, comentar com watch leader, e não obter resposta. E não é por falta de conhecimento das pessoas. Mas parece que desistiram daquele sonho vibrante do início, à 28 dias atrás, em Londres, de subir no ponto mais alto do podium.

 
Dia 18 – 26/09/13
Lat: 06o 19’- Norte
Long: 026o 20’ – Oeste
Ainda no meio do nada e dos Doldrums... 
Quinto dia de tentando cruzar esta peculiar (pra dizer o mínimo) região do planeta. Aqui a previsão do tempo vale por algumas horas apenas. Quando chegamos aqui a previsão era de que a zona de convergência intertropical se estenderia da latitude 11o N até 8 o N, mas parece que ela gostou de nós e não quer nos deixar sair.  Estamos já na latitude 6 o N e o vento ainda é incerto. E acabo de saber que esta deve ser a maior ITCZ (Inter Tropical Convergence Zone) da história da Clipper. Castigo? Não sei, mas parece que estamos pagando por alguma coisa. Mas para ser justo, não devemos ser os maiores pecadores por aqui, já que há barcos em situação bem pior. O barco Mission Performance, já apelidado de Mission Impossible, Fo o primeiro a entrar nos Doldrums apostando em uma passagem mais rápida rumando mais para oeste, no entanto deve ser o último a deixar este pedaço do inferno na terra. 

Chegamos a passar de 8 a 10 horas quase parados, andando somente com o balaço das velas com as ondas. Nas últimas 8 horas tivemos um vento mais constante de cerca de 3 nós vindo de suldoeste. Outros barcos tem desempenho ainda pior.  Durante a noite, quando houve vento e squalls (tempestades isoladas) adotamos uma estratégia mais agressiva (pra não dizxer arriscada) de velejar com o nosso maior spinnaker (code 1) e vela mestra sem rizos. Nestas noites quase não respirávamos e o convés era um silêncio só. Passávamos muito próximos das nuvens que, mesmo em noite escura, já eram assustadoras. Quando olhávamos para a tela do radar a sensação era ainda pior. Ventos aumentando de 5 para 12 ou mesmo 15 nós, e fomos seguindo. A estratégia deu resultado. De oitavo fomos à sexto. Agora voltamos para sétimo na medição de distância até o nosso destino final. 

O calor ainda é o nosso pior castigo. Piorando com a falta de vento. Somente durante algumas horas durante a madrugada e no início da manha é possível dormir sem acordar totalmente suado. O resto do dia e da noite é pura tortura. Já rolou até ritual para Netuno, deus grego do mar e para Éolo,  deus do vento, pedindo por vento e dias melhores. Mesmo durante a madrugada é possível ficar no convés sem camiseta. Dentro do barco, o calor gerado pelo fogão e forno com a nossa comida e pão, somados ao calor do gerador, ditam a temperatura da sauna. Durante o dia a escolha é simples fritar sob o Sol escaldante ou cozinhar lentamente dentro do barco. Durante a noite pode-se arriscar uma soneca no depósito de velas. Mas se houver uma troca de velas, você será acordado e provavelmente envolvido na manobra. Ontem recebi um presente, pois é assim que encarei. Fui incumbido mudar a instalação do sistema de som para o deck. 6 horas trabalhando dentro e fora do barco, passando e cortando cabos, terminais, amplificador, etc. Porque presente? Pelo menos não fritei mais um dia no Sol e tive coisa pra fazer. A falta de ocupação está sendo extremamente prejudicial para a saúde mental.

Nem tudo é lamento e tortura. Pelo menos os Doldrums estão nos proporcionando algumas paisagens únicas, com nascer e por do sol incríveis, com um mar calmo e espelhado que eu nunca imaginei que podia ser possível no meio de um oceano tão grande, noites estreladas que parecem dia, além de arco-íris e tempestades que mais parecem bombas atômicas detonadas. À noite, às vezes confundimos a via láctea com nuvens de tão densa que ela aparece para nós. Na foto é possível ver o melhor e o pior dos Doldrums: velocidade 0,00 e um por do sol magnífico.
 
 Imagem
Foto: Brian
Lat: 09o 35’- Norte
Long: 027o 17’ – Oeste

Certamente no meio do nada e dos Doldrums...

Em primeiro lugar agradeço todas as mensagens de suporte. Mesmo uma simples frase ajuda a superar o calor infernal dia e noite e dá mais energia para seguir com o trabalho no deck. Obrigado a todos.

A nossa estratégia de cruzar o Doldrums está dando certo. Deixamos o dia 13 em último lugar para o “stealth mode” em último e voltamos 24h depois em nono. E na manhã seguinte em oitavo. Tivemos boa sorte nos dois primeiros dias nesta região única e imprevisível. Velejamos a maior parte do tempo com o nosso maior spinnaker e a noite, quando as nuvens começam a baixar, por segurança usamos a Yankee 1. Somente por algumas poucas horas não tivemos vento durante o dia, mas nestas poucas horas foi o suficiente para entender o que é os Doldrums. Mal sabia o que ia acontecer no dia 15... Quando o vento apareceu, conseguimos fazer bons 10 nós por mais de 6 horas com a nossa code 1 em orça folgada e no rumo certo.

Durante a noite tive mais uma mostra da fama e poder desta região. No nosso turno das 23hs as 03hs (é sempre quando as piores coisas acontecem), começamos monitorar os squalls pelo radar e também pelo horizonte já que tínhamos lua cheia.

Conseguimos desviar de nuvens muito, muito, feias. Parecia que o céu estava com raiva e despejava toda a sua ira em forma de chuva e vento. Até que chegou a minha vez de ir para o leme perto das 02hs da madrugada. Já tínhamos passado por uma nuvem de chuva, mas que só ajudou a nos impulsionar no rumo certo com ventos de até 18 nós e 12 nós de velocidade. De repente, surge no radar um monstro amarelo que quase preenchia a metade a bombordo (esquerda) da tela do radar. Não tinha como escapar. Todo mundo preparado para rizar a mestra. Começamos a entrar na tempestade e o vento subiu de 5 para 18 nós em coisa de 2 minutos. E veio a chuva, torrencial. Quase não dava pra enxergar. E doía na pele. Coisa de 5 minutos, mas o suficiente pra criar uma lâmina de água no convés. E como começou parou. De repente. Só que desta vez o vento foi à zero. Era possível ver e ouvir a chuva atrás de nós a cerca de 50 metros, e nós agora ali, parados. Mais alguns minutos e o vento reapareceu, só que vindo do lado aposto, do lado onde as nuvens mais assustadoras estavam. Já era quase 03hs da madrugada e hora de troca de turno, quando o vento simplesmente pulou de 10 para 22 nós. Sem aviso, sem nuvem no radar, e em menos de um minuto. O pessoal que estava subindo no deck, ainda meio sonolentos, tomou um susto e tiveram que se segurar para não cair pra fora do barco. Inclinamos mais de 40 graus, e rumávamos leste ao invés de sul. Não deu tempo de fazer nada, só de aliviar um pouco a pressão na vela mestra. Foi um grande susto. Uma das únicas vezes que tive medo aqui. Certamente se houvesse uma pessoa menos experiente no leme, estaríamos em sérios apuros. Mais uma dos Doldrums....

O dia amanheceu com temperatura mais amena, mas sem vento. Nenhum vento mesmo. Cerca de 8 horas praticamente parados. E o sol nos cozinhando vivos no deck. Dentro do barco a situação não era melhor. Cada um desce do deck e senta para descansar parece que correu uma maratona, mesmo dando apenas alguns poucos passos. Completamente desidratados e exaustos.

Era possível ver ao longe em todas as direções nuvens e vento. Menos ali, onde estávamos. Mar parado que parecia vidro. Desesperador e realmente irritante! O trabalho constante em tentar fazer as velas encherem nos rendeu algumas milha nestas horas, no entanto não há prognóstico de tempos melhores.

O único fato que alterou a monotonia da manhã foram dois barulhos. Bang, bang (nunca é um bom sinal). E nossa vela mestra despenca sobre as nossas cabeças mais uma vez. Desta vez alguma coisa dentro do mastro literalmente comeu a driça (cabo) que segura à vela. Para alívio do Stuart, que já pensava que outro de seus “splices” (olhal costurado na ponta do cabo) tinha arrebentado novamente. Haverá um processo investigativo mais tarde para descobrir o que está roendo nossos cabos dentro do mastro.

 Agora é esperar que a face noturna e raivosa dos Doldrums, cheia de tempestades isoladas, nos empurre pra fora daqui de uma vez.

 
Lat: 13o 15’- Norte
Long: 026o 28’ – Oeste

Cerca de 150  milhas a sul do oeste de Cabo Verde.

Estamos rumando sul em direção aos Doldrums que na data que estamos começa aos 12 o  de latitude norte e pode ter centenas de milhas extensão. O calor continua nos castigando dia e noite. Passa facilmente dos 35 graus tanto fora quanto dentro do barco. Hoje tivemos mais uma mudança de horário para que o nascer e por do sol fiquem mais adequados ao horário do barco. Por uma hora a mais, durante o almoço, ficamos todos no deck. E foi neste momento que fomos pegos pelo primeiro squall.

Uma imensa nuvem preta que se podia ver a mais de 20 km de distância. O vento mudou de 8 para 18 nós em uma questão de 2 minutos. Felizmente estávamos preparados. Fomos desviando do vento e aliviando as velas para evitar que o barco inclinasse demais. Depois veio a chuva. Torrencial. Perfeita para colocar o banho de todos em dia. Para ela também estávamos preparados. Shampoo e sabonete a postos. Foi uma festa. Todos puderam ter o seu momento de ducha na água que escorria pela vela e caía no deck. Seria bom ter uma destas pelo menos uma vez por semana para aliviar o odor a bordo.

Estamos nos aproximando cada vez mais dos outros barcos e preparando nossa estratégia final para cruzar os Doldrums, e por isso vamos entrar em “Stealth mode” pelas próximas 24h (começando em 21/09 – 1800hs UTC). Neste período nossa posição não será divulgada para os outros barcos nem para o público geral. Depois que passar este período conto qual é a estratégia e se ela deu certo. Está tudo relacionado ao ponto que escolhemos para cruzar os doldrums.

 
Lat: 26o 55’- Norte
Long: 026o 06’ – Oeste
Cerca de 50  milhas a oeste de Cabo Verde.

Os últimos dias foram marcados principalmente pelo forte calor da região tropical no hemisfério norte. Os ventos alísios desta região vêm da região oeste da África e trazem muito calor e umidade, o que torna a vida a bordo e o trabalho no deck bem difíceis. Aí vem a preocupação com a desidratação.

No dia 10 fui pra cozinha com a Sue para preparar almoço, janta, pão e biscoitos.

Um calor infernal. Principalmente trabalhando com fogão e forno acesos. Fiquei responsável pelo almoço. Fiz macarrão ao pesto com uma dose especial de alho.

Quase 2,5kg de macarrão e 2kg de molho para alimentar 20 tripulantes que gastam bastante energia a bordo mais o Briam, nosso câmera man, que não tem trabalhado tanto assim... O pessoal adorou. Não sei se pela fome, mas tive que rejeitar vários pedidos de quero mais. Consegui inclusive uma menção no blog do skipper a respeito da boa comida à bordo. (que pode ser visto na página da Clipper). Ponto positivo também foi o banho que tomei na popa do barco. Incrível sensação de alívio e uma vontade absurda de me jogar neste mar calmo, quente e de cor azul anil.

No dia seguinte o calor foi ainda pior e era a minha vez de fazer a faxina do barco. Limpar banheiros e todo o chão e desinfetar as superfícies. Trabalho de quase três horas em um calor ainda pior.... Dormir está cada vez mais difícil.

Durante o dia é quase impossível e a noite não muda muito. E quando chove temos que fechar todas as gaiútas (pequenas janelas à prova d’água) piorando ainda mais.

Hoje e aniversario do Stuart, o meu Watch leader, completando 64 anos. A bravura dele em dar a volta ao mundo me inspira, e mostra que idade nao e impedimento ou desculpa para buscarmos os nossos sonhos. Feliz aniversario Stu e tenha um ano inesquecível.

Passando pelo arquipélago de Cabo Verde, o próximo passo agora é rumar sul para os Doldrums (a zona de convergência intertropical), rota que revisamos dia a dia tentando achar a melhor condição de vento para evitar ficarmos presos por dias em uma região muito quente, com pouquíssimo vento e com tempestades variadas e imprevisíveis, trazendo muito trabalho para a tripulação com as mudanças constantes de velas e de concentração extrema na trimagem das velas em vento fraco.

O calor e nosso desempenho em relação aos outros barcos deixam o moral um pouco baixo, (apesar do skipper sempre dizer o contrário no seu blog). Estamos progredindo, chegando mais perto do grupo, mas ainda oficialmente em último.

Ainda não chegamos a metade do caminho e os sinais de desgaste é visível no rosto das pessoas. A saudade de casa e das pessoas queridas começa a bater forte, muito forte. Para amenizar, um pouco de música brasileira e rever e compartilhar com os outros fotos e vídeos pessoais. Vamos torcer por uma passagem rápida pelos Doldrums e que a tripulação brazuca traga sorte quando chegarmos em águas brasileiras.

Dia 9

17/9/2013

1 Comment

 
 Imagem
Foto: Brian Carlim
Lat: 27o 35’- Norte
Long: 021o 12’ – Oeste

Cerca de 170 milhas a oeste das Ilhas Canarias. Rumando ao sul em direção ao arquipélago de Cabo Verde.

Hoje foi um dia de descanso para a tripulação. Depois de uma noite cheia de surpresas e várias tentativas de colocar um spinnaker no alto, a nossa maior vela, o spi 1, ficou no ar o dia todo com ventos amenos em torno de 10 a 14 nós e mar tranquilo. Praticamente um dia de cruzeiro. Foi uma velejada bem tranquila e prazerosa, oportunidade para os ainda pouco experientes treinarem a técnica no leme e na regulagem do spinnaker. Dia perfeito para colocar a música mais alta e curtir uma boa “vibe” no leme. As gurias aproveitaram para tomar banho e lavar o cabelo na popa, já que amanhã é dia de foto da tripulação do topo do mastro. Foi a desculpa que acharam pro banho após uma semana no mar. E é Incrível o poder de adaptação do ser humano, principalmente do gênero feminino. Elas conseguiram tomar banho com apenas 4 litros de água, confiantes em dizer que era suficiente. Na quinta-feira, dia 18, viro “mainha” e tomo banho, isso se a água não estiver fria. A propósito todos decidiram não tomar banho no banheiro dentro do barco. O trabalho é tão grande para limpar e secar o banheiro todo novamente que é mais fácil levar um balde para a popa do barco e fazer o serviço ali mesmo. É a vida abordo...

Conseguimos tirar 20 milhas de distância em 6 horas em relação ao nosso concorrente mais próximo, o barco da suíça, sinal que estamos no caminho. Poderíamos ter um pouco mais de vento para manter a velocidade acima dos 10 nós e tirar o máximo do barco.

Durante a noite tivemos mais emoções, no meu turno das 23hs às 03hs, começamos um jogo de gato e rato com os “squalls”, as pancadas de chuva isoladas, já que elas podem ser bem perigosas, pois podem trazer grande alteração na direção e velocidade do vento. Para isso, monitoramos no radar as grandes manchas coloridas. Foi bem interessante e até divertido, ajudando a passar o tempo mais rápido. Pra dizer a verdade um dos melhores turnos noturnos que tive. Às vezes você quer passar perto delas e aproveitar a aceleração do vento, mas não entrar no meio dela. Pra variar, fui o eleito para o leme em mais uma condição adversa de tempo, me firmando como melhor timoneiro, depois do skipper, é claro.

Tudo certo. Passamos ilesos. Sem chuva e sem muitos sustos.

O turno seguinte não teve tanta sorte, assim que eles subiram começou a chover forte. Mais tarde, por volta das 5hs da manhã, uma grande alteração na direção vento fez com que tivéssemos um “crash jibe” (a palavra crash já indica coisa ruim) e o movimento da retranca, apesar de segura com o “preventer”, dobrou o “guardrail” e arrancou um dos “fair leads” da proa, peça usada para guiar os cabos de atracação, feito para suportar grande pressão. O barulho foi tão grande que eu acordei, além ver o barco rolar uns 50 graus. Já estava pronto para mais um “allhands on deck”. Desta vez, era o skipper no leme, conseguindo resolver o problema rapidamente, sem mais consequências para outras partes do barco e velas. Não consegui dormir depois disso.

Durante a manhã (do dia 9) um dos melhores momentos pra mim até agora. O vento mudou um pouco de direção deixando o nosso rumo em uma orça folgada. O skipper me perguntou se conseguia timonear naquele ângulo com o nosso maior spinnaker no alto. Era ainda noite, escura e sem estrelas, e com as nuvens ainda rondavam o barco, por isso a justa preocupação. Não tive dúvida em dizer que era capaz. Na verdade, estava fácil. O mar liso, com um pequeno swell, mais parecendo uma lagoa. Depois de pegar mar grande, durante a noite escura, aquilo não era nada. Foi então que fiz o nosso Old Pulteney acelerar numa brisa gostosa de 10 a 13 nós, inclinando o casco em perfeitos 20 graus, vendo a velocidade atingir até 12 nós com aquele spinnaker todo cheio e colado ao barco, durante mais um memorável nascer do sol. Me senti timoneando um Volvo 70 (mas com metade da velocidade).Depois de surfar ondas grandes de até 5 metros, esta foi a sensação mais gostosa que tive até agora, perdurando por cerca de 1hora e meia, algo para nunca mais esquecer.